amanhã é outro dia

20090803

UM MUNDO MELHOR

Eis uma notícia contra a corrente. Um estudo da Marktest para a TSF e DE revela que os portugueses estão mais confiantes do que em 2008. Ora, a crise mundial rebentou lá para Outubro de 2008 e, a partir daí, a palavra está gasta. Optimistas?! Nem de propósito, uma das notícias seguintes debitada pela rádio, refere o alerta da Agência Internacional da Energia, que avisa que o mundo caminha para a catástrofe energética. A NISSAN deu a volta ao problema. Não vai criar seis Arábias Sauditas nos próximos anos, mas já mostrou ao mundo o seu carro eléctrico. Se tudo correr mal, fuja! Quiçá para outro mundo. Afinal, há um grupo de cientistas portugueses à procura de vida fora do sistema solar.

Escrito por Maria :: 3:17 PM :: 0 Comentários:

Ver Comentários / Comentar

---------------oOo---------------
A JUSTIÇA SERVE-SE FRIA

Como um casaco de chuva, a justiça é impermeável, mas não à prova de dilúvio. À medida que a sociedade vai mudando, a justiça vai sofrendo ajustes, ainda que lentos. Será descabido de todo? Ou será que a justiça não deve ser decidida a quente, mas servida fria…como a vingança?

São pequenas vitórias a decisão do Tribunal Constitucional, que entende que o casamento gay não é inconstitucional, ou a decisão do Supremo que decidiu o direito de uma mulher à indemnização porque o marido ficou impotente em consequência de um acidente e isso trouxe prejuízos à sua familiar e conjugal.

A justiça nunca pode ser vista como um caso julgado. Pode ser um prato frio. Ou requentado.

Escrito por Maria :: 10:41 AM :: 0 Comentários:

Ver Comentários / Comentar

---------------oOo---------------

20090729

AMIGOS VIRTUAIS E REAIS

Afinal, a amizade tem um preço. Ou, pelo menos, um limite. Quando Bill Gates arranjou dez mil amigos, no Facebook, disse "basta". O homem que vulgarizou o uso do computador fechou a porta de casa ao mundo. De que vale conhecer o mundo, se não conhecermos a nossa própria rua. Pelo que a PJ de Braga relata, o homem evadido há desasseis anos da prisão, após ter sido condenado pelo homicídio da vizinha, conhecia bem a sua terra e a sua região, tanto que podia imaginar-se que tivesse galgado a fronteira para Espanha ou até cruzado o oceano e, no fim de contas, o homem estava a dois passos de sua casa, tendo vivido este tempo todo em grutas, na zona de Vieira do Minho, protegido pela sua rede social de amigos e familiares ao longo dos anos. "Um telescópio pode alcançar muito longe, mas não enxerga através de uma simples folha de papel opaco. Algo de parecido acontece com as pessoas, sabem das coisas distantes e estão cegos para o que está muito mais próximo."*
*in PortoKyoto, Pedro Paixão

Escrito por Maria :: 7:15 PM :: 0 Comentários:

Ver Comentários / Comentar

---------------oOo---------------

20090604

O QUE OS OLHOS NÃO QUEREM VER

Foto: Agência. Autor não encontrado.


Com olhos de falcão sobre as águas do Atlântico, o militar esconde-se atrás dos binóculos que procuram um rasto da presença do avião da Air France, desaparecido algures entre o Brasil e a Europa. A dúvida: o que é que aconteceu? Uma certeza: o avião não chegou ao destino, Paris. O que irá na cabeça daquele homem com olhos de falcão? Anseia por um sinal do aparelho no meio do oceano e, ao mesmo tempo, sabe que se o encontrar, esse sinal quererá dizer que a esperança das famílias das 228 pessoas que seguiam a bordo se afunda naquelas águas profundas. Como fio de esperança daquela mulher, preso por satélites, que liga para o telemóvel do marido. Ele não atende, mas o telefone está ligado. É uma esperança presa por arames, ela sabe, ele vinha naquele voo. Talvez a resistência das máquinas supere a condição humana. Enquanto não se sabem as causas do acidente, talvez a explicação se fique pela raiva dos deuses e dos céus que o pássaro mecânico não venceu.

O militar avista os destroços. Uma cadeira, mais umas chapas, e um rasto de combustível. Ele é o mensageiro que ninguém quer escutar.

Escrito por Maria :: 5:00 AM :: 0 Comentários:

Ver Comentários / Comentar

---------------oOo---------------

20090501

MENINA E MOÇA

Os olhos de menina observam, tristes, que uma das unhas de gel, comprida e vermelha, está partida. Olha para as mãos em busca de uma fuga para o aborrecimento daquele corredor de obstetrícia do Hospital de Santa Maria. Sílvia está acompanhada pela mãe, mas é esta menina, que não tem mais do que treze anos, que é a utente. Foi encaminhada para aquele serviço depois de passar pela pediatria. As mães com trinta anos entreolham-se e, silenciosamente, confessam-se: sentem-se velhas perante aquele cenário. As grávidas são muitas e a chamada ao consultório é feita lentamente, a conta-gotas. Sílvia, Tal como as outras crianças que ali estão a acompanhar as mães, está muito entediada. Anda de um lado para o outro porque não há cadeiras suficientes para sentar toda a gente e, a dada altura, anicha-se no colo da mãe. Voltou a ser a menina, a bebé, abraçada ao pescoço da mãe. E, de repente, volta a ser a mulher, que liga ao namorado, que descobre que ele já está “quentinho”, que é como quem diz, bêbedo, às oito da noite. Pede-lhe para ir buscá-la, mas ele diz que não lhe apetece ir “apanhar seca” para ali. Desliga, amuada. A mãe, com resignação, conforta a sua menina e diz-lhe “filha, não tens mesmo sorte com os homens”.

Passada meia-hora, Sílvia é finalmente observada pelo obstetra e volta para o serviço de pediatria, o lugar das crianças.

Escrito por Maria :: 4:15 PM :: 0 Comentários:

Ver Comentários / Comentar

---------------oOo---------------

20090224

COM TEMPO


O tempo corre e já vão atrasados. Com calma. A velocidade é constante, não podemos parar o tempo, mas podemos não lhe dar a importância que ele quer ter. O tempo quer ser sempre personagem principal e deixar para segundo plano as coisas importantes da vida. Avó e neto vão devagarinho, à velocidade do passo gigante do bebé de dois anos, que arrasta o trolley pequenino com rodinhas pequeninas. Atravessam a rua de mão dada, indiferentes à pressa dos condutores que param, contrariados, na passadeira. Aquele tempo é deles.

Escrito por Maria :: 12:23 PM :: 0 Comentários:

Ver Comentários / Comentar

---------------oOo---------------

20090127

AMOR À PRIMEIRA VISTA


Quando a vi sabia que era ela. Pode não ter nascido de mim, pode não ser do meu sangue. Nunca ouviu a minha voz nem lhe ouvi as primeiras palavras. A minha filha tem sete anos e eu acabei de nascer agora que a conheci. Quando a vi, naquele orfanato do outro lado do mundo, com uma pele escura ao lado do meu tom branco leite. Tão diferentes, somos iguais. Ninguém precisou de mo dizer, mas eu sabia que era ela. A minha filha foi amor à primeira vista.

Escrito por Maria :: 9:12 PM :: 0 Comentários:

Ver Comentários / Comentar

---------------oOo---------------

20090126

A BATA

Podia ter vestido uma bata lavada. Devia ter vestido a bata lavada. Bolas! Agora é tarde. Já vou a caminho. E o caminho hoje até parece mais longo. Não sei se é da chuva, se é do frio. Se é do aperto que sinto no peito e das lágrimas que querem saltar dos olhos e que controlo com os meus pulsos apertados. Não sei, mas as pedras parecem mais soltas, as solas dos sapatos sentem tudo o que vai por baixo e o que vai por dentro de mim. Ninguém sabe, nem eu sei explicar. A verdade é que há catorze anos que faço este caminho e nunca me custou tanto como neste último dia. Os calos que tenho nas mãos parecem ter-se passado para os pés. Tenho calos nas mãos desde menina, quando tinha idade para brincar e já cosia solas de sapatos à lareira. Nunca perguntei à vida o que queria ser, porque a vida foi ela guiando-me sem me perguntar nada. Numa transição quase natural, deixei de coser sapatos à lareira e passei a cosê-los na fábrica. Foi só chegar aos dezasseis anos. A escola há muito que tinha ficado pelo caminho. Mas aprendi a ler e a escrever e a fazer contas. Por isso, dezasseis com catorze dá trinta. Tenho trinta anos e vou trabalhar nesta fábrica pela última vez. Vai fechar, ser vendida, vamos todos embora. É a crise. Hoje é o último dia. Devia ter vestido uma bata lavada.

Escrito por Maria :: 4:02 PM :: 0 Comentários:

Ver Comentários / Comentar

---------------oOo---------------