<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952</id><updated>2011-08-22T13:31:51.008+01:00</updated><category term='Tempo'/><category term='Amores Perfeitos'/><category term='Dias passados'/><category term='Amores Imperfeitos'/><category term='Inocências'/><category term='Dias'/><title type='text'>amanhã é outro dia</title><subtitle type='html'>Há dias bons e outros menos bons e há sempre o dia seguinte...</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>88</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-4604423487983767851</id><published>2009-05-01T16:15:00.001+01:00</published><updated>2009-05-01T16:19:18.755+01:00</updated><title type='text'>MENINA E MOÇA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Os olhos de menina observam, tristes, que uma das unhas de gel, comprida e vermelha, está partida. Olha para as mãos em busca de uma fuga para o aborrecimento daquele corredor de obstetrícia do Hospital de Santa Maria. Sílvia está acompanhada pela mãe, mas é esta menina, que não tem mais do que treze anos, que é a utente. Foi encaminhada para aquele serviço depois de passar pela pediatria. As mães com trinta anos entreolham-se e, silenciosamente, confessam-se: sentem-se velhas perante aquele cenário. As grávidas são muitas e a chamada ao consultório é feita lentamente, a conta-gotas. Sílvia, Tal como as outras crianças que ali estão a acompanhar as mães, está muito entediada. Anda de um lado para o outro porque não há cadeiras suficientes para sentar toda a gente e, a dada altura, anicha-se no colo da mãe. Voltou a ser a menina, a bebé, abraçada ao pescoço da mãe. E, de repente, volta a ser a mulher, que liga ao namorado, que descobre que ele já está “quentinho”, que é como quem diz, bêbedo, às oito da noite. Pede-lhe para ir buscá-la, mas ele diz que não lhe apetece ir “apanhar seca” para ali. Desliga, amuada. A mãe, com resignação, conforta a sua menina e diz-lhe “filha, não tens mesmo sorte com os homens”. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Passada meia-hora, Sílvia é finalmente observada pelo obstetra e volta para o serviço de pediatria, o lugar das crianças. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-4604423487983767851?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/4604423487983767851/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=4604423487983767851' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4604423487983767851'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4604423487983767851'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2009/05/menina-e-moca.html' title='MENINA E MOÇA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-482817491931608169</id><published>2009-02-24T12:23:00.000Z</published><updated>2009-02-24T12:24:06.041Z</updated><title type='text'>COM TEMPO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O tempo corre e já vão atrasados. Com calma. A velocidade é constante, não podemos parar o tempo, mas podemos não lhe dar a importância que ele quer ter. O tempo quer ser sempre personagem principal e deixar para segundo plano as coisas importantes da vida. Avó e neto vão devagarinho, à velocidade do passo gigante do bebé de dois anos, que arrasta o trolley pequenino com rodinhas pequeninas. Atravessam a rua de mão dada, indiferentes à pressa dos condutores que param, contrariados, na passadeira. Aquele tempo é deles.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-482817491931608169?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/482817491931608169/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=482817491931608169' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/482817491931608169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/482817491931608169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2009/02/com-tempo.html' title='COM TEMPO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-3725983191372131522</id><published>2009-01-27T21:12:00.002Z</published><updated>2009-01-27T21:17:48.961Z</updated><title type='text'>AMOR À PRIMEIRA VISTA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quando a vi sabia que era ela. Pode não ter nascido de mim, pode não ser do meu sangue. Nunca ouviu a minha voz nem lhe ouvi as primeiras palavras. A minha filha tem sete anos e eu acabei de nascer agora que a conheci. Quando a vi, naquele  orfanato do outro lado do mundo, com uma pele escura ao lado do meu tom branco leite. Tão diferentes, somos iguais. Ninguém precisou de mo dizer, mas eu sabia que era ela. A minha filha foi amor à primeira vista. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-3725983191372131522?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/3725983191372131522/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=3725983191372131522' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3725983191372131522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3725983191372131522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2009/01/amor-primeira-vista.html' title='AMOR À PRIMEIRA VISTA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-3651307117421913995</id><published>2009-01-26T16:02:00.002Z</published><updated>2009-01-26T16:07:54.264Z</updated><title type='text'>A BATA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Podia ter vestido uma bata lavada. Devia ter vestido a bata lavada. Bolas! Agora é tarde. Já vou a caminho. E o caminho hoje até parece mais longo. Não sei se é da chuva, se é do frio. Se é do aperto que sinto no peito e das lágrimas que querem saltar dos olhos e que controlo com os meus pulsos apertados. Não sei, mas as pedras parecem mais soltas, as solas dos sapatos sentem tudo o que vai por baixo e o que vai por dentro de mim. Ninguém sabe, nem eu sei explicar. A verdade é que há catorze anos que faço este caminho e nunca me custou tanto como neste último dia. Os calos que tenho nas mãos parecem ter-se passado para os pés. Tenho calos nas mãos desde menina, quando tinha idade para brincar e já cosia solas de sapatos à lareira. Nunca perguntei à vida o que queria ser, porque a vida foi ela guiando-me sem me perguntar nada. Numa transição quase natural, deixei de coser sapatos à lareira e passei a cosê-los na fábrica. Foi só chegar aos dezasseis anos. A escola há muito que tinha ficado pelo caminho. Mas aprendi a ler e a escrever e a fazer contas. Por isso, dezasseis com catorze dá trinta. Tenho trinta anos e vou trabalhar nesta fábrica pela última vez. Vai fechar, ser vendida, vamos todos embora. É a crise. Hoje é o último dia. Devia ter vestido uma bata lavada.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-3651307117421913995?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/3651307117421913995/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=3651307117421913995' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3651307117421913995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3651307117421913995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2009/01/bata.html' title='A BATA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-6084995581043740567</id><published>2009-01-22T21:43:00.000Z</published><updated>2009-01-22T21:44:11.227Z</updated><title type='text'>3 ANOS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O Amanhã comemora hoje três anos. &lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-6084995581043740567?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/6084995581043740567/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=6084995581043740567' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/6084995581043740567'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/6084995581043740567'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2009/01/3-anos.html' title='3 ANOS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-7683141932431664499</id><published>2009-01-22T21:31:00.001Z</published><updated>2009-01-22T22:08:14.246Z</updated><title type='text'>A FOTOGRAFIA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Cuidado! Se me tirarem uma fotografia, levam-me convosco para sempre, e quando digo isto não falo da fotografia, falo da minha alma, que vai aí convosco, sentada ao vosso lado, conhecer as vossas casas, as famílias, os segredos. Não tenho bagagem e, no entanto, levo tudo comigo, levo a minha vida toda somente agarrada à minha pele e a esta roupa que repito todos os dias depois da minha morte. Vocês não sabem, mas é assim. Pensei dizê-lo, avisar-vos, mas também quero a minha liberdade. Estou farta de estar presa neste corpo, assim há anos, com o mesmo penteado e no mesmo sítio, enclausurada neste hotel, perdida no cume da montanha. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Agora que me tiraram a foto, o que falta para partirmos?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-7683141932431664499?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/7683141932431664499/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=7683141932431664499' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7683141932431664499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7683141932431664499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/07/fotografia.html' title='A FOTOGRAFIA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-5508960396124320078</id><published>2008-12-22T19:58:00.002Z</published><updated>2009-01-22T22:09:03.029Z</updated><title type='text'>UMA HISTÓRIA DE NATAL</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Hoje ninguém a acredita, os mais novos nem sequer conseguem imaginar, mas, houve um tempo, há muito muito tempo, em que não havia televisão, e muito menos televisão a cores, e muito muito menos vários televisores nas várias divisões de um casa só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito muito tempo, a casa da prima Arminda era a única a ter televisão. E foi uma festa na terra quando o primo Anastácio comprou a caixa que, vá-se lá saber, por obra de que espírito santo, falava com as pessoas e apareciam pessoas mesmo. Foi aí que o rádio perdeu o seu protagonismo, a televisão, diziam as mulheres enquanto mondavam os campos e conversavam umas com as outras, diziam os homens quando, ao final do dia, recuperavam as forças na taberna, frente a um copo de vinho, que a televisão era mais verdadeira do que o rádio, porque ali sabia-se quem estava a falar, as pessoas davam a cara. E o que aqueles homens engomados e as mulheres bonitas diziam era lei e fazia escola. E, assim, o senhor António da barbearia passou a copiar à letra o tamanho e feitio dos bigodes dos homens que apareciam na televisão. E, na missa, ao domingo de manhã, desfilavam vestidos com feitios como os da TV e tentavam-se os penteados das apresentadoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa da prima Arminda e do primo Anastácio mais parecia a casa da Joana ou lá como diz o ditado. A toda a hora havia gente, fosse homem ou mulher, a sentar-se ou, simplesmente, a espreitar pelo postigo. Um dia, à noite, já deitados, finalmente na paz deles, o casal tomou uma decisão irreversível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, era Natal e não se trabalhava, o primo Anastácio levantou-se bem cedo e com a neblina partiu na carroça puxada por duas mulas. A aldeia estava adormecida. Ninguém ouviu o fôlego das mulas rua fora, ninguém ouviu as rédeas a baterem no dorso dos bichos, ou as rodas mal oleadas. Na noite anterior, todos ficaram em casa da prima Arminda e do primo Anastácio até tarde, para ver a missa do Galo, enquanto a igreja da terra, estava vazia de fiéis, mais fiéis da televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se chegou à hora de abrir a emissão, já se fazia fila à porta da casa. À hora exacta, a prima Arminda abriu a porta e, para espanto de todos, sobre a mesa camilha ardia a braseira e nada de televisão. Havia os indignados, os enfurecidos, os tristes e os incrédulos. E havia os sorrisos escondidos da prima Arminda e do primo Anastácio. Aquele dia e os restantes passaram-se na paz do senhor.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-5508960396124320078?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/5508960396124320078/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=5508960396124320078' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/5508960396124320078'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/5508960396124320078'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/12/uma-histria-de-natal.html' title='UMA HISTÓRIA DE NATAL'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-3791755552188239437</id><published>2008-12-07T18:44:00.000Z</published><updated>2008-12-07T18:45:51.935Z</updated><title type='text'>UMA QUESTÃO DE EMBRULHO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por detrás de um balcão gigante, uma moça pequena e franzina luta com um papel de embrulho. Parece uma mosquinha que tenta passar despercebida para não ser apanhada e morta. Corta papel e cola fita com destreza. Já repetiu o gesto centenas de vezes hoje, já embrulhou dezenas de electrodomésticos da loja onde trabalha, que a faz usar aquela camisola horrorosa, que soma a uma permanente mal feita. À medida que o embrulho esconde a caixa da máquina de café, revela-se uma voz clara e simpática. Solta-se daquela camisola e da permanente. A conversa flúi e faz esquecer que já é tarde e que está há muitas horas de pé. O embrulho está pronto, escondendo o que vai no seu interior. Aquela moça rasgou o dela. O que está escondido num embrulho é sempre uma surpresa. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-3791755552188239437?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/3791755552188239437/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=3791755552188239437' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3791755552188239437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3791755552188239437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/12/uma-questo-de-embrulho.html' title='UMA QUESTÃO DE EMBRULHO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-7241095533075800884</id><published>2008-11-02T12:55:00.002Z</published><updated>2008-11-02T13:38:52.842Z</updated><title type='text'>OS SOBREVIVENTES</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Quem morreu? Sim, tu estás aí debaixo da terra, não respiras, não comes e não corres pela casa. E eu sou o quê? Não sei por que como. Se calhar porque respiro. Tu paraste de respirar pouco depois. No hospital, os médicos levaram mais tempo para dar a notícia do que o tempo que tiveram para te salvar. Eu, abraçada ao teu pai, tremia de frio numa tarde de verão. E olhava sem fixar o fundo do corredor para onde te levaram, e pensava sem registar no que tinha acontecido, o momento, de um momento para o outro. O momento que vai de um olhar esgueirado à porta até ao olho no almoço que está ao lume. Mexo uma última vez a massa no tacho e tiro o tacho do lume, deixo a massa descer até ao prato e o vapor encobre-me os olhos. Chamo Liliana e não oiço nada. Dever ser do vapor que também não me deixa ouvir. Liliana Vem almoçar, digo e devolve-me o silêncio. Ultrapasso a cortina de vapor e olho e vejo aquilo que não quero ver. Grito e não me ouves. Como agora pergunto e não me respondes. Quem morreu? E só o pergunto a ti, porque todos os outros chamar-me-iam egoísta e má. Tu, filha, não o fazes. Gostas de mim. Morreste num momento, em que a inocência era o todo em ti, curtos três anos de vida, pelo menos morreste feliz, conhecendo tão-só as brincadeiras e os mimos dentro das paredes de casa. A casa que esconde perigos. Quando eu mergulhei na cortina de vapor da massa do almoço, a tua preferida, mergulhaste na água. Adoravas água. Nasceste e morreste na água. Tudo em casa. Mas, manda a sociedade que mortos e vivos não co-habitem no mesmo local. Por isso, do hospital foste para a igreja e da igreja para aqui, já não foste a nossa casa, a dois passos desta morada, onde eu ainda moro, até hoje. Porque hoje, venho fazer-te companhia.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-7241095533075800884?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/7241095533075800884/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=7241095533075800884' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7241095533075800884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7241095533075800884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/11/os-sobreviventes.html' title='OS SOBREVIVENTES'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-1601358065456783353</id><published>2008-10-10T22:39:00.001+01:00</published><updated>2008-10-11T00:08:25.856+01:00</updated><title type='text'>O VOO BAIXINHO DA ANDORINHA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Os olhos. Os pés. O sorriso. E as mãos. Os meus olhos vão descendo, por esta ordem, sobre a mulher que se cruza comigo no corredor estreito. Os olhos dela são brilhantes, umas azeitonas pretas e grandes que se destacam no rosto de pele escura, olhos com rímel e lápis mais negro ainda, meio esborratados da chuva, da chuva de Outono, que marca o início do Outono num dia que parece de Inverno e que apanha desprevenidos aqueles que não levaram casaco quando saíram de casa, e as mulheres que insistem em sair de casa de sandálias em dias sem raios de sol. A mulher que se cruza comigo no corredor estreito traz sapatos abertos e finos, de verniz, brilhantes como os olhos, grandes como os olhos. Olho-a novamente nos olhos, que falam alegres com o sorriso dos lábios grossos. Sem dizer uma palavra, ela cumprimenta as pessoas com quem se cruza e diz. Por dentro, aquela mulher está feliz. Porque em paz. Genuinamente feliz. Capaz de bater as asas e voar, andorinha fora de época, atrasada na partida para paragens mais quentes, andorinha presa numa gaiola. As mãos estão algemadas. Sai do corredor e, à porta, olha o céu, que agora parou de chorar. E, entra no carro celular. Dali parará só em Tires. A liberdade talvez chegue na primavera, quando as andorinhas voltarem. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-1601358065456783353?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/1601358065456783353/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=1601358065456783353' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/1601358065456783353'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/1601358065456783353'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/10/o-voo-baixinho-da-andorinha.html' title='O VOO BAIXINHO DA ANDORINHA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-2125833083997044439</id><published>2008-09-07T17:44:00.005+01:00</published><updated>2008-09-07T22:46:55.726+01:00</updated><title type='text'>VOLTEI</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Descalcei as chinelas e coloquei os pés na terra batida da rua, terra quente, o pó a esconder-me as unhas pintadas. Fiquei a senti-la. Fechei os olhos e ouvi-a. À minha mãe. A chamar-me. Feliz. Um sorriso nos lábios. Sem rugas como há trinta anos. A minha mãe e eu a acenar-lhe, a gritar Voltei, e a correr descalça para abraçá-la. Voltei, Mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Foi uma sensação estranha. Não sei se foi bom. Ou mau. Foi uma sensação estranha ter voltado à rua de terra batida, à minha terra. Voltei, Mãe. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Voltei à minha terra sem voltar a casa. Aqui nada nem ninguém me pertence. Ninguém me conhece. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Voltei, Mãe. Mesmo que já não estejas cá.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-2125833083997044439?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/2125833083997044439/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=2125833083997044439' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/2125833083997044439'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/2125833083997044439'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/09/voltei.html' title='VOLTEI'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-2987487958450798382</id><published>2008-02-11T11:31:00.000Z</published><updated>2008-02-11T11:33:32.376Z</updated><title type='text'>SÓ EM MIM</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A gargalhada solta-se alta, estridente. Sinto-me envergonhado por aquele gesto excessivo. Enquanto me sirvo de mais um copo de vinho tinto, o outro, com traços exagerados, com uma boca grande de mais, "manga" comigo. No espelho, por detrás das prateleiras, das prateleiras do bar, cheias de garrafas de whisky barato e quase vazias, vejo a minha expressão aborrecida. Raios te partam, sim tu, com essa cara de parvo, pareces uma caricatura, que fala alto, em gargalhadas altas, não sabe falar de outra maneira. Digo-lhe: não fales alto, não fales tão alto que me dói a cabeça. Sem tempo para pensar, ele responde-me: não bebas tanto! Não gosto de ouvi-lo. Riposto alto: cala-te seu estupor. Estou a dar-te dinheiro para a casa ou és burro que nem vês isso? Pão para a boca. Assim já compreendes? Eu não como, limita-se a dizer, com a cabeça altiva, enquanto limpa um copo. Daqui a pouco vais dizer-me que não respiras: digo eu, baixinho, para dentro, para mim, numa fala retórica, sem esperar ou querer resposta e, no ar, só se ouve a minha voz a desfazer-se no ar enquanto diz: desaparece! Desaparece da minha vida! E jogo-lhe o copo que acabei de limpar à cara. À cara de boneco. Parvo. Estúpido. E fecho os olhos para me proteger dos vidros e dos pedaços de espelho que se soltam numa explosão, em ricochete. Abro os olhos quando o barulho passa e sinto o sangue que escorre como pingos de chuva numa manhã de primavera. Estranhamente refrescantes. Procuro-o. Também ele sangra, numa imagem distorcida, que se desvanece, que se perde tal como os pedaços de vidro que caem no chão. E agora, não dizes nada? Diz! Fala! Fala comigo! Não te vais embora, assim, levianamente. Preciso de alguém para falar. Onde estás tu, tu que há pouco estavas aí no espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abandonado naquela sala, com cheiro nauseabundo a filhós e a ranço, não sei se respiro, já não como, não sei se vivo. Estou sozinho. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-2987487958450798382?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/2987487958450798382/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=2987487958450798382' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/2987487958450798382'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/2987487958450798382'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/02/s-em-mim.html' title='SÓ EM MIM'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-8440589239430133884</id><published>2008-01-29T12:59:00.000Z</published><updated>2008-01-30T10:35:41.486Z</updated><title type='text'>AQUELE OLHAR</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Acho que foi o olhar. Foi o olhar que me prendeu. Quando os meus olhos se prenderam nos dela, foi a diferença entre a vida e a morte. E a distância, tão curta, entre o presente condenado e o amanhã que não existia. O olhar, triste e meigo, duas avelãs pequeninas e brilhantes, o resto de vida de quem ainda quer acreditar que vai sobreviver. Afinal, há ali vida. Ainda pode haver um amanhã. O meu olhar não ficou indiferente ao olhar dela. Abri o saco de plástico cheio de água onde ela quase jazia, como se fosse um peixe de aquário de água fria. Quando a água se soltou, tal e qual um dique a esvaziar, o corpo parecia ainda mais pequeno, magro, indefeso. Nessa altura, senti-lhe o coração a bater de medo. Hoje, há dias em que estou mesmo arreliado e pergunto-me, alto, por que razão a salvei. Só quando pergunto alto, porque quando pergunto às coisas lá de dentro, o coração responde sem margem para dúvida: foi a opção certa. São coisas que se dizem alto, da boca para fora, quando ela faz asneira da grossa, quando pega na colcha da cama e desfila com ela pelo quintal, quando se deita com o meu filho. Mas, quando olho para o pêlo sedoso que tem agora, o lombo farto, a maneira alegre como ladra quando me vê chegar ao final de um dia de trabalho e corre para mim, prega-me as patas gigantes nos ombros e quase me deita ao chão, e lambe-me a cara efusivamente, quando olho nos seus olhos fico preso àquele olhar.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-8440589239430133884?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/8440589239430133884/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=8440589239430133884' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8440589239430133884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8440589239430133884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/01/aquele-olhar.html' title='AQUELE OLHAR'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-692206392630385990</id><published>2008-01-25T15:35:00.000Z</published><updated>2008-01-25T15:41:03.488Z</updated><title type='text'>AS REGRAS DE ELVIRA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece-me o velho que se sentava todas as tardes na taberna da esquina. O velho sentava-se, resmungava, mas nao consumia. A Elvira, dona do estabelecimento comercial, já o tinha avisado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; ou começa a consumir ou vai pregar para outro lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, estava eu lá sentado, calado como sempre. Eu calado e sempre a observar. Quando o o velho chegou, sentou-se e começou a resmungar. Refilou a Elvira mais alto, com as suas carnes generosas a ferverem, por trás do balcão, depois de um murro dado no tampo de madeira carunchosa, com a força de um homem. Virou-se para o velho e disse-lhe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Oiça lá, não lhe disse já que não vem pra qui com conversas que não valem sete e quinhentos, fazer barulho e não beber nada?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher sem coração. Não posso beber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não bebe, não mama e não chora. Dê meia volta e faça boa viagem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho foi-se embora a resmungar. Elvira meteu-se para dentro, para lá da cortina de plástico que enxota as moscas e os olhares cuscos sobre a sua cozinha. Voltou passados minutos, com um papel pardo, meio engordurado já, com umas letras desencontradas. Pregou-o por cima do aviso amarelecido que proíbe a venda de bebidas alcoólicas a menores de 16 anos. No papel, lia-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Proibida a permanência a maiores de setenta que não consomem bebidas nem comidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, parece-me que o velho está sentado na pastelaria da avenida, sentado a resmungar e sem nada consumir.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-692206392630385990?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/692206392630385990/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=692206392630385990' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/692206392630385990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/692206392630385990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/01/as-regras-de-elvira.html' title='AS REGRAS DE ELVIRA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-7953423483395748197</id><published>2008-01-22T11:26:00.000Z</published><updated>2008-01-22T11:32:41.606Z</updated><title type='text'>N.A.-DOIS ANOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Hoje o Amanhã faz dois anos. No balanço de dois anos, há objectivos a que me propus e que se concretizaram. Assim, este não foi mais um blogue meteórico que sucumbiu no final do período da novidade. E outros que não alcancei, já que nem sempre "amanhã foi outro dia" e os textos não nasceram à velocidade de um por dia. Mas, não há pais nem filhos perfeitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Amanhã é outro dia foi, nestes dois anos, programa de rádio por duas vezes. Como os desejos não custam, gostava que o futuro fizesse do Amanhã um livro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os próximos dois anos, a Maria promete continuar a contar as histórias de outras marias e manéis, que não são ninguém e que são um bocadinho de todos nós e do mundo que nos rodeia. Afinal, como escreveu Pearl S. Buck, "há sempre um amanhã"!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obrigada.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-7953423483395748197?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/7953423483395748197/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=7953423483395748197' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7953423483395748197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7953423483395748197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/01/na-dois-anos.html' title='N.A.-DOIS ANOS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-604316169705951500</id><published>2008-01-21T22:39:00.000Z</published><updated>2008-01-21T22:41:22.432Z</updated><title type='text'>O VELHO QUE FUMA CIGARROS SUAVEMENTE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;É estranho por que é que o tabaco se chama Português Suave. Afinal, o cigarro, que é Suave, é dos mais fortes a fumar. O travar do tabaco, o sulco da nicotina, arranha a garganta à passagem, parece uma ceifeira que desce por aquele cano, cortando a torto e a eito. Mas, quando desagua nos pulmões, é tão calmo como as águas agitadas dos rios quando atingem a foz. É por isso que continuo a fumar, por causa dessa sensação de prazer, de paz, que é a serenidade da água na foz, a nicotina que se espalha pelos pulmões, como uma manhã e nevoeiro. Eu chamo-lhe assim. Outros apontam-me o vício. Fumo há muito tempo. Tanto tempo que já não se conta pelos dedos da mão, mas os dedos da mão direita contam a história do meu vício. Estão amarelos, parecem alfarrobas ressequidas. Quando comecei a fumar havia um carro por rua e o tabaco era de enrolar, depois apareceram os maços. O Português Suava hoje tem filtro, mas mais de metade da minha vida fumei sem filtro. Sem máscaras. Como na vida, agora as mulheres fazem operações plásticas para tirar as rugas e as famílias recorrem ao crédito para iludir sobre o estilo de vida. Usam-se filtros para tudo. Nada daquilo que vemos é a verdade pura, ela aparece sempre escamoteada, adulterada. Não sei do que me queixo. Acho que não me queixo. Também tenho os meus filtros, como o fumo do cigarro que esconde o homem que sou. Quem me vê, vê um homem seco a fumar. O gesto, o cigarro, passam a ser a nossa característica. Nem alegres nem tristes, nem efusivos ou tímidos. Talvez crie uma aura misteriosa. Vejo muitas pessoas a olharem discretamente para mim, parecem estar a viver um misto de admiração com repugnância. Sou apenas o homem do cigarro. Indiferente. Sou indiferente às críticas e diferente da maioria dos homens da minha idade. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-604316169705951500?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/604316169705951500/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=604316169705951500' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/604316169705951500'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/604316169705951500'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/01/o-velho-que-fuma-cigarros-suavemente.html' title='O VELHO QUE FUMA CIGARROS SUAVEMENTE'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-5789341984035127360</id><published>2008-01-14T00:07:00.000Z</published><updated>2008-01-16T00:03:06.811Z</updated><title type='text'>QUANDO O GRITO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;As leis da natureza ditam. Há os que nascem e os que morrem. Quando eu nasci a minha mãe morreu. Foi assim, num sopro. Fui o último sinal de vida que o corpo dela manifestou. Em palavreado de médico, o óbito foi declarado no momento em que gritei, a pulmões largos, naquela sala de operações. Quem mo disse foi a minha mãe. Depois dela estar morta e eu declarado nascido com vida, continuámos a ter as nossas conversas como no tempo em que eu ainda não era vivo e estava dentro da barriga dela e ela era viva. A minha avó, mulher seca de palavras, costumava dizer que só me tinha criado porque eu era bom e não dava trabalho. Ele parece que nunca chorou, parece que nasceu a falar: dizia. Nunca lhe revelei, porque ela não compreenderia, que falava com a minha mãe. A minha mãe morta, bonita, o cabelo apanhado num rabo de cavalo, o vestido simples e largo, como se eu ainda tivesse espaço para estar lá dentro, escondido, protegido. Nunca conversei com o meu pai. Não me lembro de ouvir a minha mãe falar com o meu pai. E também nunca me falou dele nas nossas conversas intermináveis enquanto eu crescia. Comecei por falar e depois aprendi a andar. Entrei para a escola com a mesma leveza com que saí. Levei a minha mãe comigo. À medida que cresci e me tornei mais independente, as conversas com a minha mãe tornaram-se mais escassas. No silêncio da noite, quando os homens estão a dormir, as almas acordam e passeiam-se. Eu estou acordado. Ela vem ver-me. Já nem sempre fala. Vem acompanhada por outros e em segundos todas as imagens se desvanecem no meu olhar, primeiro até aos ombros e depois a cabeça. Penso que ela encontrou o seu lugar. Acho que está feliz. Mais tarde ou mais cedo, todos os espíritos encontram o seu lugar. Sempre que uma criança, acabada de nascer, dá o primeiro grito de vida. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-5789341984035127360?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/5789341984035127360/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=5789341984035127360' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/5789341984035127360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/5789341984035127360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2008/01/quando-o-grito.html' title='QUANDO O GRITO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-2712131644683512880</id><published>2007-12-30T23:56:00.001Z</published><updated>2008-03-03T23:08:20.138Z</updated><title type='text'>DONA CONCEIÇÃO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Quando era pequena, só havia dois estados para os meus pés: ou descalços ou com sapatos que não eram feitos para os meus pés. O meu pai era um homem remediado, com animais e pastagens, mas dava pouco valor à mulher e aos filhos. E uma vez, de quando em vez, o meu pai resolvia comprar sapatos para os filhos. Agarrava num filho ao calhas, punha-lhe o pé sobre um papelão e desenhava-lhe a planta do pé. Éramos oito, fora os que não vingaram. Se fechar os olhos e pensar na minha mãe, a imagem que tenho dela não é velha, mas nova, grávida, mal vestida e mal alimentada, alerta às suas crias. O meu pai ia à feira e comprava um par de sapatos para cada um dos filhos que já andasse na escola. Os pequenos ainda podiam andar descalços mais uns tempos. Por isso, o martírio dos meus pés começou quando entrei para a escola. A minha mãe dizia que eu saía nos pés ao meu avô, o pai dela, que era um homem alto e de pés grandes. Fiquei alta sim, hoje estou mirrada, mas os pés continuaram grandes. Demasiado grandes para caber em sapatos de cinderela, assim delicados eram os pés da minha irmã mais nova. O meu pai nunca percebeu isso. E se algum de nós se atrevesse a dizer alguma coisa, era bem capaz de levar um ensaio de porrada antes que a segunda palavra saísse da boca. Nunca percebi como é que o meu pai, que era um homem de negócios inteligente, que ninguém o enganava com mais meio quilo ou menos meio quilo no peso de um chibo, não conseguia perceber isso. Percebo: o meu pai não nos via, não sabia que existíamos. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mas os senhores devem estar cansados desta ladainha toda. Eu ajudo-vos a encontrar o caminho para o castelo.E o corpo franzino, escondido por baixo da bata azul celeste com flores miudinhas e pantufas ortopédicas em castanho camelo, avança à frente do casal, a abrir caminho. Dá indicações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei os senhores porque ia a caminho da mercearia, que se mantém aberta a custo e pela teimosia do senhor Alfredo, sabem. Ele vende umas palmilhas muito boas, e as meias de descanso também são mais baratas do que na farmácia. Ele disse-me que vai comprá-las ao Martim Moniz. Eu não desço lá abaixo. Tenho medo de cair, e dessa gente malfazeja que por aí anda. No tempo em que vim morar para cá, era tudo diferente. Já lá vão tantos anos, Meu Deus. A vida nas beiras era muito difícil, tempos difíceis, como hoje ninguém sabe dar o valor. Ninguém sabe. Um dia, conheci um moço bem parecido na feira. Ele achou-me graça e pediu-me em casamento. Hoje sou viúva. E viemos viver para a cidade que ele também não queria guardar cabras para o resto da vida. Lisboa era tão grande na altura, grande demais para quem nunca tinha visto uma cidade. Ele era muito meu amigo, e tivemos três filhos, está cada um para seu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o corpo da mulher velha, contorce-se enquanto sobe, faz pausas na conversa e às pernas, para recuperar o fôlego. E é com desânimo que mostra o portão do castelo.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Pronto, a partir daqui os senhores já não se perdem. Divirtam-se, sim. E obrigada. Obrigada por este bocadinho. São muito simpáticos. Se calhar já não vou à mercearia. As palmilhas ainda aguentam mais um dia e meias, tenho lá dois pares. Não vou maçar o senhor Alfredo. Afinal, já falei aqui um bocadinho com este casalinho tão simpático. Uma boa tarde, sim. Adeusinho. E que Deus vos abençoe. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-2712131644683512880?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/2712131644683512880/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=2712131644683512880' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/2712131644683512880'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/2712131644683512880'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/12/dona-conceio.html' title='DONA CONCEIÇÃO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-1130389069131842724</id><published>2007-12-01T23:52:00.000Z</published><updated>2008-01-15T00:12:27.792Z</updated><title type='text'>FREI GABRIEL</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A mão pela superfície, os dedos, tortos das artroses, limpam o pó que os anos depositaram, avivam as memórias que os anos não apagaram. O papel está gasto, a fotografia está meio desfeita, mas, ainda assim, é ela. A pose, própria das fotografias da época, não retrata a sua amada na perfeição, no riso nunca disfarçado, no olhar cheio e brilhante, no tom claro da pele, no cheiro doce da sua pele. A sua amada perfeita, o amor impossível. Gabriel, nome de arcanjo, dá voltas na cama de corpo e meio. O ranger dos pés da cama no chão de madeira velha, mantém acordado o espírito que lembra outros tempos. Na cama de corpo e meio, recorda a mulher que amou e que nunca se deitou com ele, nem ali nem nunca. E no entanto, ainda sente o cheiro da pele dela. Da pele que nunca tocou. Tinha vinte e um anos quando a conheceu. Vestia hábito e tinha por missão tratar dos jardins das casas ricas da região em troca da caridade dos donos, em favor da sua confraria, que vivia plenamente o voto de pobreza. Ela era a filha dos senhores da casa, que estudava sozinha, com uma professora particular, e tinha aulas de piano todas as tardes, com uma senhora idosa e muito gorda. A senhora, sempre de leque na mão, abria as janelas para refrescar o ar. Entre as quatro e as cinco e meia, ela tinha aulas de piano, ele tratava do jardim. Era assim todos os dias, semana após semana. Um dia, porém, foi diferente. O piano desafinava, como se os seus dedos tocassem em feridas em chaga. Soltavam-se notas altas, que gritavam pela janela. No jardim, enquanto regava, ouvia a revolta que ia no coração da mulher, menina. A professora de música perdeu a paciência, ela cansou-se da professora. Saiu da sala, fugiu para o jardim, refugiou-se num canto. E deparou no frade que tocava na terra, suavemente, como se acalmasse a terra, sentiu-se tranquila, bem. Sorriu para o frade, o frade deu-lhe uma margarida. Ela continuou a sorrir, e depois riu. A flor cheirava tão bem. Ela cheirava tão bem. Ela voltou para casa. Ele acabou o trabalho por aquele dia. Ele despiu o hábito para sempre. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-1130389069131842724?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/1130389069131842724/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=1130389069131842724' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/1130389069131842724'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/1130389069131842724'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/12/frei-gabriel.html' title='FREI GABRIEL'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-7797768456362616110</id><published>2007-11-19T20:16:00.000Z</published><updated>2007-11-20T10:21:31.253Z</updated><title type='text'>O HOMEM-ARANHA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;É o homem-aranha aquele que se vê entrar pela porta, destemido, corajoso, e desaparece no meio das chamas. As mulheres observam, sem reacção, temem o pior porque a pobreza de quem vive em barracas, e barracas em bairros de lata, não permite acreditar em milagres. Não permite sequer acreditar. O homem-aranha, no seu fato azul, é engolido pelo fogo. Ninguém é capaz de dizer. Mas, o som da madeira que verga ao calor fala pelas bocas em silêncio. Um silêncio que, afinal, dura há segundos apenas. Foi há pouco que o homem-aranha entrou ali, explica uma mulher a um bombeiro, apontando para a barraca em chamas. O bombeiro não fala, mas pensa. Até que alguém diz: o menino está morto. Se está morto esta é a reencarnação, grita outra mulher. O homem-aranha sai por aquilo que sobra da porta da barraca e traz uma menina pela mão. A menina vem assustada. Ele, pouco maior, não. O menino entrega a menina à mãe. Missão cumprida diz para o homem-aranha desenhado na t-shirt azul. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-7797768456362616110?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/7797768456362616110/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=7797768456362616110' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7797768456362616110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7797768456362616110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/11/o-homem-aranha.html' title='O HOMEM-ARANHA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-8950804803272430069</id><published>2007-11-13T09:30:00.000Z</published><updated>2008-01-19T22:58:45.970Z</updated><title type='text'>O TIO, O TODDY E A BICICLETA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Não te vi quando entrei no café. Só depois de dois golos na meia de leite quente, que espantou o frio da rua, reparei na mesa do canto da pastelaria. No casal sentado na mesa do canto. Um homem de meia-idade, charmoso nos seus cabelos grisalhos, que acompanhava com um porte ainda atlético e uma roupa jovial. Ela tinha um ar de menina da faculdade, deslumbrada com o saber de um homem mais velho. Procurava nele muito mais do que um namoro ou uma paixão. Procurava aquilo que a idade traz aos homens e que aos vinte eles não têm. Era uma menina ainda, mas as meninas crescem mais depressa do que os rapazes. Não ouvi a conversa, mas estavam em sintonia. Ele podia ser o pai. Ela podia ser filha. E todavia, os olhares e as mãos denunciavam os amantes. Quando o meu olhar se cruzou com o dele, prendeu-se. Prendeu-se a um passado. Ele também soube nessa altura que eu era mais do que uma bisbilhoteira. Quem é ele? Quem é ela terá ele pensado. Mais uma conquista à porta da faculdade talvez. E foi preciso recuar no calendário até à infância para reconhecer o homem. Aquele homem. Menos grisalho, menos velho, o mesmo charme. O &lt;em&gt;tio&lt;/em&gt;, namorado da mãe, que eu quis tanto que fosse o pai, mas que partiu um dia, tal como chegou numa noite depois de um jantar romântico com a mãe. Não me lembro do nome dele, lembro-me que gostava dele. Dos lanches medidos em latinhas de Toddy. Do dia em que me ensinou a andar de bicicleta. Segurou-me no selim e dei voltas sem fim na praceta, como se desse voltas ao mundo. Aquele era o meu mundo. Até que chegou uma hora em que largou o selim. Da primeira vez que percebi que andava sozinha caí. Mas, depois concluí que conseguia andar. Sozinha. Daí em diante, andei de bicicleta sempre sozinha, naquela praceta e nas outras que foram surgindo enquanto cresci. O tio não voltou a aparecer. Até hoje. E, no entanto, ficou o sabor desses meses lá longe, de um tempo que não volta, como não voltam as latinhas de Toddy do sabor que ainda hoje recordo. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-8950804803272430069?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/8950804803272430069/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=8950804803272430069' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8950804803272430069'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8950804803272430069'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/11/o-tio-o-toddy-e-bicicleta.html' title='O TIO, O TODDY E A BICICLETA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-3743362489807896141</id><published>2007-10-29T09:02:00.000Z</published><updated>2007-10-29T17:00:11.679Z</updated><title type='text'>DONA QUITÉRIA E O SENHOR DOUTOR</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Não sei dos documentos e estou atrasado. É tarde. Tenho que ir. Mas não posso sair sem os documentos. Onde é que meti a pasta. Dona Quitéria sabe da minha pasta? Este escritório está uma bandalheira Dona Quitéria!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(e vasculho no meio dos lençóis, no meio da cama, debaixo da cama, entre a arrastadeira e as pantufas, no chão de mosaicos grandes e cinzentos)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me chame Dona que eu sou sim enfermeira. E agora o menino vai deitar-se, você está é cansado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;(e empurra-me para a cama, despe-me o sobretudo cinzento que insiste em chamar roupão. Como se eu fosse para a rua de roupão. Ela está louca. Há muito tempo que o sei. Mas, o que é que posso fazer? Está na família há décadas. Os meus pais tinham muita estima por ela. Agora anda a dizer que é enfermeira. De uma enfermeira precisava ela)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Como é que se atreve a chamar-me menino? Eu sei que a Quitéria está cá em casa desde que eu nasci, mas isso não é razão para me faltar ao respeito. Sou o Senhor Doutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oiça lá, você deite-se que eu não tenho tempo para isto e tenho mais doentes para medicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;(pobre Quitéria. Deixou de ter meninos para cuidar e pensa agora que tem doentes. Eu, por vezes, deixo-a pensar que sim, faço-lhe as vontades, porque me lembro da Quitéria da minha infância, que fazia o meu bolo favorito para o lanche de domingo. Aos domingos, depois de arrumar a loiça do almoço, Quitéria deitava-se a amassar e fazia o meu bolo preferido, com sabor de infância, com sabor a fins de tarde a jogar à apanhada com os meus irmãos, o sabor a bolo quente servido depois do pai e do avô jogarem xadrez)&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;Doentes? Doente está você, Quitéria, e vá, trate isso sim do meu pequeno-almoço. Que maçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mau, quem está a ficar chateada aqui sou eu. Ou você se deita para eu o medicar ou temos chatice. Quitéria!... Já lhe disse para não me chamar Quitéria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(agora já nem aceita o nome que lhe deram, pobre da minha ama velha, tão expedita noutros tempos e agora sem raízes, a fazer de conta num mundo que já não conhece)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quitéria! Quitéria, por favor não me dê o medicamento que eu preciso mesmo de ir à faculdade e ao escritório mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;(e, mais tarde ou mais cedo, cedo e faço-lhe a vontade, só para a ver feliz, ela faz de conta que me dá uma injecção e que eu adormeço. Ela fica feliz e eu fico feliz por vê-la feliz)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Vai mais tarde. Tem que ser senhor doutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(a Quitéria é a pessoa de quem mais gosto, ela não é a minha ama, ela é a minha mãe, é o cheiro do colo dela que eu recordo, era ela que me limpava o suor e me tirava a febre em criança, como ainda hoje o faz)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quitéria, na minha pasta estão os exames. Importa-se de os levar aos alunos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com certeza que vou. Não se preocupe com isso. Agora durma, está muito cansado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(estou tão sonolento, vou ficar deitado um bocado. A Quitéria leva os documentos ao escritório. Eu peço-lhe e ela faz-me isso. Faz tudo por mim só para me ver descansar)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa noite Dona Quitéria!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até amanhã menino…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(e deixo-a chamar-me menino. Oiço os passos dela a afastarem-se da cama. Oiço alguém a falar com ela. Alguém que a chama de senhora enfermeira. Acho que entrei nos sonhos dela. E não sei por que estou deitado num quarto com tantas camas e não encontro o meu lavatório de registo ao fundo, junto à janela. Estou tão cansado. Tenho que descansar)&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-3743362489807896141?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/3743362489807896141/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=3743362489807896141' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3743362489807896141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3743362489807896141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/10/dona-quitria-e-o-senhor-doutor.html' title='DONA QUITÉRIA E O SENHOR DOUTOR'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-4447920494423766206</id><published>2007-09-28T01:18:00.000+01:00</published><updated>2007-09-28T13:38:33.455+01:00</updated><title type='text'>PARAR, OUVIR, SENTIR</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Quando o movimento dos corredores das enfermarias acalma, começo a ouvir outros sons e outras vozes. Ouço os carros, os motores a gasóleo mais do que os motores a gasolina, os pneus a chiarem pelas pedras da calçada acima, a queixarem-se do piso gasto, do plano inclinado. Oiço as mulheres da vida, que trocam o dia pela noite, e descem agora a rua em direcção ao rossio. Oiço os bêbados que sobem, cambaleando, encostando-se ao muro, caindo de quando em vez, e suplicando a um guindaste que os levante ou ao carro o lixo que os leve. Oiço os polícias que param para um cigarro. O que reza baixinho para que a noite seja calma porque Deus é testemunha de que só trabalha neste horário para fazer face às despesas, agora que o terceiro filho vem a caminho. O polícia, que se cruza com o bêbado e o manda para casa. O polícia que dá vaia às mulheres da rua e as trata com desprezo e sem pena porque elas ganham mais por noite do que ele. O polícia que cumprimenta os homens que recolhem o lixo porque são tão desgraçados como ele. Como ele, também lidam com a porcaria que corre nas ruas da cidade. Posso não ver, mas oiço tudo. As ligaduras que me vedam os olhos não me impedem de ver o mundo. O meu mundo foi sempre assim: uma névoa feita de sons que identifico muito longe, como os cães, que não vêem as cores mas que ouvem tudo. E cheiro também. Sei agora que na última cama está um velho a apodrecer, tal e qual a carne de porco deixada ao ar, que já nem as moscas varejas lhe pegam. Já não grita nem chora, espera por ela, pela morte, serenamente. Espera pelos bichos da terra e da madeira que o vão comer, e sente-los infiltrados nos lençóis. Mais à frente, no corredor, uma empregada de limpeza dança com a esfregona. Cheiro a lixívia pura diluída na água e os meus ouvidos captam os círculos precisos que as duas fazem na pedra gasta da enfermaria. Oiço a minha mãe que sai ao portão. Diz boa noite ao guarda nocturno do hospital. Fica sempre até ao último minuto comigo, porque quer estar comigo, porque não tem mais ninguém na cidade grande, eu não a vejo, nunca a vi, mas sei que vai com uma expressão assustada, mulher do campo inadaptada à metrópole, vai com medo dos ladrões e dos depravados e dos pedintes, leva a carteira presa ao ombro e apertada contra o peito, vai num passo apressado e ligeiramente manco como o compasso que o pé esquerdo na calçada denuncia. A minha mãe viu nascer outros dez filhos, como eu todos em casa e sem dores. Achou-se uma mulher com sorte, pobre, mas com sorte. Até que eu nasci. E aí achou-se uma pecadora e eu o castigo de Deus. Eu, José, nunca lhe conheceria o rosto nem veria o mundo. Não sou cego. Vejo apenas o mundo `a minha maneira, procuro as formas e até sei as formas do corpo de uma mulher Mãe. Mas tu não percebes isso Mãe, porque não vês Mãe. Estás parada no tempo, no mundo, na aldeia, tal como na nossa casa ainda hoje vamos buscar a água ao poço quando o resto do povo tem água canalizada. Sentes-te culpada por eu ser assim, uma pecadora segundo as tretas que o padre te meteu na cabeça. É para aliviar a tua dor que estou aqui mais uma vez, que voltei a submeter-me a uma cirurgia à vista, para te ver feliz. Queria tanto que tu visses como sou feliz como sou.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-4447920494423766206?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/4447920494423766206/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=4447920494423766206' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4447920494423766206'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4447920494423766206'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/09/parar-ouvir-sentir.html' title='PARAR, OUVIR, SENTIR'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-5077171588405741479</id><published>2007-09-23T22:44:00.001+01:00</published><updated>2007-09-23T22:50:29.459+01:00</updated><title type='text'>O PRIMEIRO DIA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Se eu fosse a maioria este era o dia mais aguardado, se seu pensasse como a maioria estava desejosa pela chegada do dia. Quando o dia chegou desejei morrer. Mãe, não me abandones, não me deixes lá, não me deixes nunca. És a minha melhor amiga, a minha confidente. Nasci de ti, continuo a ser parte de ti e não te quero deixar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma semana que a roupa está engomada e perfeitamente arrumada de modo a não se amarrotar. Sempre que abro a porta do guarda-fatos, desvio o olhar para não encarar o vestido azul, com fita branca e casaquinho de &lt;em&gt;crochet &lt;/em&gt;a condizer. No chão, numa caixa, estão guardados os sapatos de verniz preto, têm presilha e parecem prestar-se ao sapateado. Todo o conjunto é bonito. Detesto-o. A mãe também tratou da mala, de cabedal castanho. Não quero saber do que é que está lá dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o dia chegou, o despertador tocou logo cedo. Na rua todos dormiam, até as folhas das árvores pararam de cair apesar do Outono. E não precisavam cair, as minhas lágrimas só por si inundavam o chão. A mãe estava eufórica. Achava que eu chorava de emoção. Eu chorava. Ela não compreendia. Eu queria tanto falar com ela. Falar, dizer. Não consegui. Só chorava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saímos de casa a pé. Casacos apertados para abafar do frio daquela manhã. A mãe levava a pasta numa mão e segurava a minha mão com a outra. Arrastava-me pela rua. O verniz a ficar esfacelado pelas pedras da calçada. Os meus pés a arrojarem pelo chão e ela a puxar-me. Ela falava e eu chorava. Eu era algodão na mão dela e em menos de nada chegámos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O portão erguia-se majestoso, como um fantasma imponente à nossa frente. A mãe adorava aquele ferro torneado enquanto eu me escondia atrás das costas dela e lhe apertava a mão com muita, demasiada força. Era a nossa última chance, a minha última oportunidade. Larguei a mão da mãe, a mesma mão que há pouco apertava com força, dei um passo para fugir. Ela chamou-me: vamos. Entrei. O momento chegou. Quis dizer: mãe não me deixes. Só as lágrimas saíram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final, sobrevivi. Voltei para casa sem mais lágrimas para chorar. Desejei morrer e não esperar pelo segundo dia de escola na minha vida.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-5077171588405741479?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/5077171588405741479/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=5077171588405741479' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/5077171588405741479'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/5077171588405741479'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/09/o-primeiro-dia.html' title='O PRIMEIRO DIA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-4024894654298834917</id><published>2007-09-16T17:00:00.000+01:00</published><updated>2007-09-16T17:04:08.825+01:00</updated><title type='text'>ALMOÇO DE FAMÍLIA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;À uma da tarde em ponto, a dona abre a porta do restaurante e logo tem clientes à espera. Uma senhora mal encarada entra e passa a vistoria ao local. Como um comandante, a seguir chama o pelotão. Entram no espaço o marido e outro casal também de meia-idade e um homem novo com uma menina de sete ou oito anos com um ar triste e aborrecido. O homem novo também se sente desconfortável, com aquelas pessoas e com a criança, que acaba por se revelar sua filha. A avó pensa que aquela criança, que é o seu sangue, é uma estranha. O avô pensa no almoço e na bexiga cheia. A dona do restaurante corre a acender os candeeiros que faltam, a juntar as mesas para receber o grupo. Ninguém fala. A dona do restaurante regressa para junto deles e indica-lhes a mesa. Repara que não são um grupo, muito menos amigos, apenas família. Não se conhecem, não se gostam. Os maridos preferem falar entre si. As mulheres limitam-se a discutir as novelas e o tempo entre elas. O homem novo não fala com ninguém, não sabe o que é que ali está a fazer, apetece-lhe ir embora. Tem saudades da ex-mulher, não sabe o que falar com a filha. A criança brinca sem emoção com uma boneca Polly Pocket, boceja. Quer a mãe e a outra avó. A verdadeira. Esta não. A dona do restaurante sente a necessidade de fazer algo por eles. Uma refeição saborosa, para confortar estômagos e corações vazios. Sugere os pratos. Eles aceitam sem delongas. Sem discussão. Ninguém tem fome. Só o avô da menina que, entretanto foi à casa de banho onde alivia a sua tensão que disfarça na presença dos outros. Dia longo: pensam todos. Não falam. Ainda é só uma da tarde. O segundo casal troca olhares que, na linguagem cúmplice de casal, constata: pobre família esta. A outra mulher pensa para consigo: que luta a minha, sozinha, sem marido, perdi o filho e nunca conseguirei conquistar a neta. O homem novo pensa como a sua vida precisa de mudar, como precisa conhecer aquela filha, como não tem tempo a perder, mas hoje não, hoje só quer que o dia termine. A menina pensa na mãe e na avó, a outra, e esboça um sorriso, incompreensível para os outros, não todos. A avó, a estranha, percebe. Sente o ciúme ao de cima, sente um instinto animal junto à pele e reage, como se se defendesse. Indefesa, a criança quase chora quando a avó a manda sentar direita e comer com os talheres. Reprimenda porque tirou uma batata frita com a mão, retaliação pela mãe dela ter pedido o divórcio do pai, o seu filho perdido. O homem novo não perde a oportunidade, ganha a coragem e sai em defesa da filha, pequena. Vem sentar-te ao lado do pai: diz. A menina levanta-se de imediato. Ganhou o pai. A avó perdeu duas batalhas: o filho e a neta. O homem novo deu o primeiro passo para conquistar a filha. Quando terminaram o almoço tinham menos uma hora daquele dia para estarem juntos. O outro casal estava aliviado. O avô estava aliviado. A avó só queria deitar-se porque tinha uma enorme dor de cabeça. O homem novo e a menina não se importavam com os outros. Saíram à frente, de mão dada. A criança contava-lhe quais são os seus desenhos animados favoritos. O homem novo tinha uma filha para conhecer. A menina tinha que procurar pelo pai dentro do homem novo. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;A dona do restaurante foi arrumar a mesa, os pratos estavam quase intactos embora tenham dado os parabéns ao cozinheiro. A dona do restaurante agradeceu, mas não ficou convencida. A comida pode ter enchido os estômagos, mas aqueles corações saíram vazios. Alegre só a loiça da Vista. E vista agora, a loiça até é feia. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-4024894654298834917?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/4024894654298834917/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=4024894654298834917' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4024894654298834917'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4024894654298834917'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/09/almoo-de-famlia.html' title='ALMOÇO DE FAMÍLIA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-1705641082880435059</id><published>2007-08-25T00:23:00.000+01:00</published><updated>2007-08-25T12:04:35.134+01:00</updated><title type='text'>A VIAGEM</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O ponteiro dos quilómetros sobe em harmonia com o pé direito, que carrega no pedal até ele atingir o limite. O limite do carro é cento e noventa quilómetros por hora. E o meu? Não sei. Procuro-o no preto do alcatrão que engulo numa velocidade voraz, como se o carro comesse o alcatrão e não o mastigasse. No tempo de uma digestão, entre as duas e as três horas, pode acontecer tanta coisa ao mundo. O mundo pode acabar. E eu morro de barriga cheia. Depois, quando me abrirem, vão dizer que eu comi uma pasta preta que não é azeitona, tem pedras e óleos  e tem um cheiro intenso, descobrirão um fenómeno e ficarão muito contentes e ficarão indiferentes ao meu corpo nu e aberto em cima da pedra. Estarei, nesse momento, rodeada por todos e sozinha como nunca. Já não serei corpo, mas terei alma. Almas, como aquelas que viajam comigo neste carro gigante. Ali atrás vão os medos da minha infância e no banco do meio vão os esqueletos dos meus amores sofridos. O lugar ao meu lado parece vazio, mas não está. Puro engano. Sou eu ali, o eu futuro. O eu agora, no momento em que a estrada acaba e o alcatrão se confunde com a chapa, o volante que se enrola sobre o meu pescoço. Eu, os meus esqueletos e os meus medos observamos. As sirenes aproximam-se. Os bombeiros correm, os polícias correm, comunicam pelo rádio que há um corpo encarcerado. O trânsito é interrompido. Os bombeiros vão buscar alicates gigantes e começam a cortar a chapa, rendilhada como os naperons que povoavam as casas antigas cobrindo todas as superfícies, como se escondessem os podres e as alegrias das famílias. Um bombeiro puxa de um extintor, há perigo de incêndio. Chega o Inem. O polícia chama o médico legista. Eu parti. Parto estrada fora com os meus esqueletos e os meus medos.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-1705641082880435059?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/1705641082880435059/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=1705641082880435059' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/1705641082880435059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/1705641082880435059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/08/viagem.html' title='A VIAGEM'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-130638879079965130</id><published>2007-08-12T12:19:00.000+01:00</published><updated>2007-08-13T12:37:13.496+01:00</updated><title type='text'>QUANDO CHEGAR O MOMENTO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Quando o Domingo terminar e o fim-de-semana não passar de uma memória boa, quando o campo ficar à distância de duzentos quilómetros de Lisboa, quando as férias forem um adeus até para o ano, eu chegarei perto de ti. Encontrar-nos-emos num café porque quero ser forte e a presença de estranhos fortalece-me os músculos e os pensamentos como a gema de ovo e o caldo de galinha que a minha avó me fazia quando era pequena e ficava doente. Agora são os estranhos que me dão forças. Eles não me conhecem, vêem apenas o escudo de ferro que trago vestido para me encontrar contigo. Contigo, em casa, sozinhos, fico nua. Vês através da minha armadura, com um olhar radiográfico, e os raios ultra-violetas que emanas deixam-me frágil, vulnerável, totalmente despida de mim, das minhas convicções. Há tempos fui tirar uma radiografia. Primeiro, mandaram-me despir e vestir uma bata branca e larga, de costas abertas, permitindo mostrar o corpo à técnica, indiferente ao meu desconforto, a pensar, quem sabe, nas horas e quanto tempo faltava para sair do trabalho, nas compras do supermercado que precisa fazer e a pensar que não se pode atrasar para ir buscar o filho à creche. Acordo das divagações quando a mulher, numa voz mecanizada que se confundia com o aparelho de raio-X me pergunta: não está grávida, pois não? Suba esses dois degraus e coloque-se direita. Não me deu tempo para responder ou talvez a minha voz se tenha evaporado e nem eu me tenha ouvido. Tu és o raio-X que eu não posso apanhar. A última e única vez que estive grávida gritei. Gritei de alegria, explodi por dentro e por fora, estava sozinha contigo quando descobri, mas partilhei com o mundo. Depois, gritei de dor, silenciosamente, para não ferir ninguém, para não alterar a ordem das coisas quando a dor subiu pela minha barriga e fiquei lisa, vazia, como um corpo na mesa de autópsia do Instituto de Medicina Legal, em que lhe retiram as vísceras e as tripas e depois cosem tudo ao molho. Depois de cosido, o morto fica impecável, num dos seus melhores fatos, preparado para o funeral. Curioso como nos vestimos bem para os casamentos e para os funerais. Morri quando me disseste a verdade, quando me tiraste o filho que eu queria e que não é meu. Agora, temos a hipótese de ressuscitar esse amor e de voltar a colocar os meus órgãos no lugar, dar-me vida em balões de oxigénio vindos da tua boca e alimentar-me com soro do sexo acabado de fazer. Mas, para isso, temos que falar, tenho que te dizer tudo e desabafar as minhas mágoas e dizer-te que estou zangada. Tenho que expurgar toda tristeza e revolta que tenho em mim, como o veneno da vespa que precisa de ser sugado para baixar o inchaço após a ferroada. E sim, depois, receber-te. Nua. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-130638879079965130?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/130638879079965130/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=130638879079965130' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/130638879079965130'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/130638879079965130'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/08/quando-chegar-o-momento.html' title='QUANDO CHEGAR O MOMENTO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-7266608117786971952</id><published>2007-08-11T14:22:00.001+01:00</published><updated>2007-08-11T14:23:58.937+01:00</updated><title type='text'>A ESCRAVIDÃO DA ÓRBITA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O dia há muito que nasceu, o sol há muito que está pendurado lá no alto, iluminando e aquecendo os veraneantes que se estendem pelas praias, como sardinhas a secar nas esteiras das varinas da Nazaré. O quarto está escuro, a persiana está fechada como duas pálpebras cerradas, a porta fechada tal e qual uma urna. No meio, na cama, ela dorme. Ou, se calhar, não dorme. Faz que dorme. Sonha. De olhos fechados. Outras de olhos abertos. Umas vezes os sonhos fazem sentido confundindo-se com a realidade, a maior parte das vezes não fazem sentido porque os sonhos não são feitos para fazer sentido. Existem para lembrar aos homens que não controlam tudo na vida, nem o seu próprio corpo e muito menos a mente. A mente que mente muitas das vezes. Ela pensa que ele está na cama, abraça a almofada imaginando o corpo dele, toca suavemente com as pontas dos dedos no algodão claro como a pele dele, detém-se num borboto do tecido e faz de conta que é o sinal do saliente que ele tem nas costas. Ele, que está de costas, a gozar das festas que ela lhe faz, começa a virar o corpo, num movimento de dança, são um par sincronizado, uma dança de salão partilhada na cama. Ele vira-se e ela acompanha o gesto dele. Os dedos dela deslizam até o peito dele e giram em voltas e reviravoltas. Os corpos entram na roda e também eles se comportam como planetas do sistema solar, nos seus movimentos de translação descrevendo uma órbita em redor do sol, em redor um do outro, em redor de um amor que querem fazer. Querem fazer, mas não fazem, porque também os ponteiros do relógio cumprem uma órbita de sessenta segundos sobre um minuto, de sessenta minutos sobre uma hora, de vinte e quatro horas sobre um dia. O dia que ela e ele não querem que comece, mas que já começou. O tempo que queriam que parasse para ter tempo para eles, mas que não pára. Ela parou o despertador.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-7266608117786971952?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/7266608117786971952/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=7266608117786971952' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7266608117786971952'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7266608117786971952'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/08/escravido-da-rbita.html' title='A ESCRAVIDÃO DA ÓRBITA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-8066586389600240653</id><published>2007-08-08T14:25:00.000+01:00</published><updated>2007-08-08T14:26:35.226+01:00</updated><title type='text'>SOLTA-SE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O jacto soltou-se vindo do fundo da barriga, daquela prega abaixo do ventre e antes da vagina. A dor transformou-se num jacto e soltou-se. Correu pela garganta acima como se fosse um rastilho de fogo ateado. O corpo tremeu e sentiu as pontas dos dedos dos pés ficarem rijas e inertes. O corpo retorcido como um metal ao calor, as mãos a apertar a ventre e o jacto a soltar-se. Solta-se o jacto. Ela cai sobre o chão da casa de banho. Tem o corpo quente, que refresca no mosaico frio. Soltou a amargura e a tristeza que vai no seu interior. Puxa o autoclismo e fica impávida a ver desaparecer os restos imundos do jantar triturado. Como é que as nossas tripas conseguem ser tão medonhas e nojentas: pensa. A água, forte e clara, leva tudo e deixa-la sem nada. Sente-se leve. Livre.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-8066586389600240653?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/8066586389600240653/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=8066586389600240653' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8066586389600240653'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8066586389600240653'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/08/solta-se.html' title='SOLTA-SE'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-7992347113141805089</id><published>2007-08-08T13:14:00.001+01:00</published><updated>2007-08-08T14:34:50.520+01:00</updated><title type='text'>DESTINO DESCONHECIDO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Ao chegar ao cruzamento, os irmãos separaram-se. Estavam naquele ponto, antes de entrar na auto-estrada, onde o país se divide entre o norte e o sul. Estavem naquele momento em que podiam recuperar o passado e alterar o futuro. O futuro parecia escrito a tinta da china. Uma última paragem, na área de serviço. Uma última chance. As pulsações sentiam-se e falavam pelas bocas mudas. A colher mexia o café, tilintava sobre as paredes da chávena e fez barulho ao pousar no pires. Sinal de vida, de que existiam, embora não fossem mais do que dois fantasmas. Ouviu-se o barulho da máquina registadora, a porta automática a abrir e a fechar em seguida, como se fosse apenas obra do vento. Dois motores de carro a trabalhar e o som a desaparecer no calor do alcatrão. Nenhuma palavra. O passado e o futuro, separados pela língua preta da estrada, por um presente sem nome.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-7992347113141805089?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/7992347113141805089/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=7992347113141805089' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7992347113141805089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7992347113141805089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/08/destino-desconhecido.html' title='DESTINO DESCONHECIDO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-3926760561402935192</id><published>2007-08-02T16:36:00.000+01:00</published><updated>2007-08-02T17:01:28.026+01:00</updated><title type='text'>SEGURANDO A ÁGUA NAS MÃOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Momento aquele tão longo e com o tempo a perder-se entre os dedos. Tentei agarrar aquela vida com a fragilidade com que seguro a água nas minhas mãos unidas em forma de concha. Entre a linha de água e o areal vai uma distância mínima, tão grande como o momento que não temos. Retiro o rapaz da água, não tem mais do que seis anos. É um miúdo franzino, com as costelas demasiado salientes e as bolas dos joelhos sobressaídas. Mostra um ou dois arranhões nas pernas, já quase sarados, a lembrar as brincadeiras de outros dias. Para que haja outros dias como esses, não posso perder-me nestas divagações. Volto à praia e ao rapaz que tenho nos braços, inanimado, numa fracção de segundo. Tapo-lhe o nariz, abro-lhe a boca, puxo o meu fôlego e procuro-lhe a vida no fundo dos pulmões. Uma e outra vez. Inspiro, expiro. Peço aos banhistas que se afastem. Ele precisa de espaço para respirar. Eu preciso de espaço para respirar. Ele respira. Ele vive. Ele está vivo. E eu renasci.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-3926760561402935192?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/3926760561402935192/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=3926760561402935192' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3926760561402935192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/3926760561402935192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/08/segurando-gua-nas-mos.html' title='SEGURANDO A ÁGUA NAS MÃOS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-4485101265896250123</id><published>2007-08-01T00:03:00.000+01:00</published><updated>2007-08-02T00:04:05.296+01:00</updated><title type='text'>O GRITO DEBAIXO DA BURKA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Caminhas atrás de mim e não me deixas andar para a frente. Caminhas atrás de mim como uma sombra, que parece que me protege e, afinal, me ofusca. Prendes-me a um passado e não me deixas olhar para o futuro. Quero correr para ele, para o futuro, soltar-me de ti, fugir de ti. Dessa imagem de mim que não tenho, mas que quis ter, desse corpo e da beleza que nunca me foi roubada porque nunca foi minha. Quando vamos na rua, olho para os lados e vejo-me a sorrir, de mão dada com um rapaz elegante e bonito, o manequim da publicidade do perfume. Eu também vou muito bonita, levo uma saia evasé de linho branco que esvoaça ao vento, permitindo mostrar a bola do joelho, e uma camisola de seda com flores miudinhas. Vamos de mão dada, levas-me ao cinema, levas-me a comer gelado e a jantar fora, à luz de velas, como na novela das seis que vejo quando vou à mercearia e a televisão pequena, com chuva, está sempre ligada. O camiseiro de que falo está na montra, na avenida por onde passo todos os dias a caminho da oração. Na montra está o teu reflexo, de túnica, tu, o futuro que querem para mim, que caminha atrás de mim, escondido, envergonhado do seu corpo de mulher, como se essa dádiva da natureza fosse um pecado. Perdoa-me mãe, que não me ouves aí atrás, como nunca ouviste os meus pensamentos mais secretos, mas não sou um pecado. Quando olho para trás, para ti, sei que não quero isso para mim daqui para a frente.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-4485101265896250123?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/4485101265896250123/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=4485101265896250123' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4485101265896250123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4485101265896250123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/08/o-grito-debaixo-da-burka.html' title='O GRITO DEBAIXO DA BURKA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-4943401390349186055</id><published>2007-07-24T21:28:00.000+01:00</published><updated>2007-07-24T22:13:22.075+01:00</updated><title type='text'>NÃO TE VÁS EMBORA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Cada passo que dou é uma faca que espeto na barriga, afiada, esventra-me, rebenta-me. Estou cansada, com a garganta a arder num lume brando, que não me faz cair no chão, mas que mata lentamente. Cada vez o canal se estreita mais, como o bife que mirra na frigideira. Não sei se aguento mais. Arrasto-me atrás de ti, mas estás cada vez mais longe, a um deserto de distância tal o calor deste Julho estranho que vivemos. E estas dores, por quê? Já passei por elas antes, sei o que representam, mas nunca deixo de ter medo. E não queria ficar sozinha. Por isso, te digo, te peço: não te vás embora. Enquanto te afastas. Olhas para trás com a preocupação de quem deseja que eu desapareça. Mas não posso. Preciso de ti. És o meu único mundo humano e racional, que me alimenta e me acarinha, por quem eu passo dias em espera e espero escutar a voz a todas as horas, e eu sou o elo vivo que ainda te traz aqui, a ponte entre a vida e a morte, a contrariar as leis desta terra árida, onde só as ervas daninhas se multiplicam. Eu que sou vida, que vou dar à luz outras vidas, e tenho medo. Já passei por isto antes, mas nunca me habituo. Sou um animal assustado, sozinho. Vou ter filhos lindos, pequenos, com cabeças maiores do que o corpo, os olhos vão levar dias a abrir, mas eles vão encontrar o caminho para as minhas mamas, tão frágeis e, no entanto, o instinto está lá. Começarão a lutar pela sobrevivência desde o primeiro minuto de vida, um ou dois irão morrer. É o normal. E o normal é medonho. Não me abandones. Não te vás embora. Sei que sou apenas uma gata a quem dás comida de vez em quando, mas também sou apenas a única razão que te faz sorrir, viver. Vida por vida. Por isso te peço, imploro: não te vás embora. E vejo-te desaparecer no portão.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-4943401390349186055?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/4943401390349186055/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=4943401390349186055' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4943401390349186055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4943401390349186055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/07/no-te-vs-embora.html' title='NÃO TE VÁS EMBORA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-899536132508511145</id><published>2007-07-09T23:49:00.000+01:00</published><updated>2007-07-10T00:25:28.030+01:00</updated><title type='text'>EM TERRA DE NINGUÉM</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os aeroportos são terra de ninguém. Maiores ou menores, são todos iguais, com as mesmas coisas e com a mesma falta de identidade, ou com todas as identidades juntas. Sem nenhuma nacionalidade e com todas. Faltam as cores do país, a língua própria do lugar. Que saudades das estações de comboios portuguesas, com os painéis de azulejos a contar a história da terra e do chefe da estação, com melhor ou pior dicção, a anunciar a próxima composição. Nos aeroportos tudo é cinzento, feitos de linhas direitas, e naqueles espaços só se fala o inglês. Naquela terra de ninguém, onde se cruzam todas as nacionalidades, senti-me mais sozinha do que nunca. Estava lá, longe, mas com o coração em ti. Entrei no &lt;em&gt;Free Shop&lt;/em&gt;. Deambulei o olhar pelas prateleiras à velocidade lenta com que divagava por memórias e pensamentos. Comprei-te um &lt;em&gt;souvenir&lt;/em&gt; banal, daqueles que se compram nos aeroportos para mostrar que estivemos num país. Ao pagar, reparei na hora de embarque. Quando me sentei no meu lugar, à janela, desliguei o telemóvel e adormeci. Acordei assustada, com a pressão a rebentar-me os ouvidos enquanto o avião descia para Lisboa. Tive pena de acordar daquele sonho tão bom. Éramos nós no sonho. A partir dali o meu maior desejo foi ver-te. Saber de ti. Enquanto esperava pela bagagem, houve tempo para voltar a ligar o telemóvel: adivinhar quem se preocupa connosco e em saber se fizemos boa viagem. Interiormente, pedi para que esse gesto fosse teu. À minha volta, as outras pessoas que esperavam pela bagagem repetiam o mesmo gesto. Ao meu lado, uma mulher perguntava ao filho se a tinha visto acenar-lhe lá em cima, no avião, quando este roçou os telhados de Alvalade. Até que foi a vez de o meu telemóvel dar um toque único e baixo. Senti também o tremer do aparelho no bolso. O peito encheu-se-me de ar e os olhos de brilho, os lábios abriram-se como uma harmónica. Agarrei no telemóvel com a mão direita. Com o polegar, desbloqueei o teclado e li: tem 1 nova mensagem”. Tinha a certeza que era tua. Carreguei no botão para abrir a mensagem. Podia ler-se: a Vodafone Portugal dá-lhe as boas vindas; para ouvir o correio de voz ligue 123. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na minha terra, fui ninguém. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-899536132508511145?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/899536132508511145/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=899536132508511145' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/899536132508511145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/899536132508511145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/07/os-aeroportos-so-terra-de-ningum.html' title='EM TERRA DE NINGUÉM'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-8574675294406386969</id><published>2007-07-09T17:24:00.002+01:00</published><updated>2008-05-01T17:38:11.730+01:00</updated><title type='text'>1 ANO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A Hello Kitty de chantilly e calças de morango sai à cena. Esteve escondida por causa do calor. No centro da boneca, uma vela cor-de-rosa toca os parabéns muito baixinho, o som é abafado pelas vozes que cantam em coro. Apaga-se a vela, só uma. Porque é um ano de vida. Afasta o cabelo, a maquilhagem ressente-se com a temperatura de verão. A camisola larga mostra a alça do soutien e o bronzeado, pouco. Está vestida à mulherzinha e perdeu nos últimos meses o ar de menina beta. Está uma mulher, crescida, produzida, solta uma sensualidade discreta aos presentes, um sorriso sincero de quem, naquele momento, está verdadeiramente...completamente feliz. Alegre por olhar para a filha, pequena, que cresceu tão depressa. A filha que tem um ano.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-8574675294406386969?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/8574675294406386969/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=8574675294406386969' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8574675294406386969'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8574675294406386969'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/07/1-ano.html' title='1 ANO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-6231459220178441314</id><published>2007-07-03T16:14:00.000+01:00</published><updated>2007-07-03T16:18:17.842+01:00</updated><title type='text'>NO HALL</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Às seis da tarde, a entrada do prédio parece a mudança de turno de uma fábrica, como se de cada vez que alguém coloca os quatro dígitos do código e a porta faz um som rouco ao sinal verde fosse o picar do ponto. No subúrbio de Lisboa, depois de enfrentado o trânsito, depois de um dia de trabalho, o picar do ponto ou a fechadura a dar sinal, a porta do prédio a abrir é uma fuga para a liberdade, finalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O hall da entrada é pequeno pequeno para tanta gente e tantos gritinhos. Numa roda, há meia dúzia de mulheres e crianças. As meninas gritam, as mulheres sorriem e gesticulam. No meio da roda, no centro das atenções, uma cadeira de bebé. Escondido na cadeira, tapado com uma fralda, um bebé. Um menino. Destapa-se o benjamim e por baixo do lençol descobre-se um rosto praticamente recém-nascido, enrugado, olhos assustado com o barulho, com a luz, com o mundo novo. Rita, que lindo que é o teu mano: diz uma das vizinhas. Rita não tem mais do que três anos, tem uma barriga proeminente de bebé espetada para fora, com uma camisola rosa pequenina, cabelo de canudos negros e dois dedos sempre na boca. Rita é  única que não grita, não espreita, não ri. Ninguém repara. As outras mulheres e crianças continuam a adorar o bebé. Os outros habitantes do prédio só querem picar o ponto e entrar em casa.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-6231459220178441314?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/6231459220178441314/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=6231459220178441314' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/6231459220178441314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/6231459220178441314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/07/no-hall.html' title='NO HALL'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-7786099744674842526</id><published>2007-06-29T21:00:00.000+01:00</published><updated>2007-07-02T10:27:45.465+01:00</updated><title type='text'>UM MUNDO SIMPLESMENTE COMPLEXO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;No meio da sala, a mesa quadrada. Na mesa quadrada, como um novelo, desenrola-se o papel de cenário. E no papel desfilam riscos e cores, emoções, sabores. A menina pequena, com dedos pequenos, agarra no lápis com a delicadeza (rude) possível dos seus dois anos. Fala com eles. Pergunta, procura pelo carvão escondido para lá do bico do lápis partido. Conta estórias em riscos desencontrados e palavras que só ela compreende. Escreve ao seu jeito o mundo visto à sua maneira. Mundo simples. Complexo para ela: ela que é pequena e grande. Mais pequena do que a mãe, maior do que o mano bebé. Grandes são as frases que ainda se esforça por fazer, as ideias inacabadas pelo léxico ainda insuficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina desenha meia dúzia de riscos sem nexo e, a seguir, olha para o seu público e sorri e, a seguir, explica e, a seguir, os riscos já fazem sentido. Vamos desenhar um menino e uma menina: diz a mãe. A menina pega no lápis. Primeiro um círculo e depois um risco solitário grosseiramente ligado ao círculo. E sorri novamente para a mãe, com a boca pequenina cheia de dentes. Com as mãos pequenas no ar. Bate palmas. Volta a segurar no lápis. Agora amarelo. Tanto faz. Faz mais uns traços disformes e está feita uma saia. É uma menina porque tem uma saia. As meninas têm saia e os meninos… A menina atalha a explicação da mãe: e os meninos têm uma pilinha. E continua a rabiscar. Resposta complexa (para quem?)&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-7786099744674842526?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/7786099744674842526/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=7786099744674842526' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7786099744674842526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/7786099744674842526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/06/um-mundo-simplesmente-complexo.html' title='UM MUNDO SIMPLESMENTE COMPLEXO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-8268767137273955736</id><published>2007-06-02T00:29:00.000+01:00</published><updated>2007-06-02T21:22:36.680+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias passados'/><title type='text'>A CASA ADORMECIDA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O ranger da porta, empenada, inchada da chuva do Inverno, velha, inchada como as pernas de uma velha, acordou as aranhas e aranhiços que correm à frente do feixe de luz que invade o corredor, que revela o pó acomodado nos móveis e as paredes húmidas, como viúvas chorosas. A última vez ali, antes da porta velha se fechar, foi feita de lágrimas, tristezas, dor dE morte. A morte afastou-a daquela casa durante mais de uma década. A morte não levou a casa. Destruiu-lhe uma das paredes do alpendre, há telhas fora de sítio e consequentes goteiras pelo meio das divisões, mas, não a levou para nenhum cemitério, a morte levou tão-só –tanto- a vida que dava vida àquela casa. Aquela casa que, de um dia para o outro, se fechou para o mundo, num luto agora quebrado, como se quebrasse o feitiço de uma bela adormecida. A casa que agora desperta, acorda novamente para a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, entra pela porta velha, afasta uma teia de aranha como quem afasta uma cortina. A cada passo, a sua cabeça dá uma volta de trezentos e sessenta graus. Vê primeiro, observa depois, toca com os olhos nas coisas, coisas banais, dantes era indiferente à sua presença, ignorava-as à sua passagem, olha para aqueles objectos neste momento, e são-lhe essenciais. &lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;Na cozinha, o silêncio e um tom acinzentado tomam conta de tudo, tudo que é nada, outrora um todo, o cheiro doce a bolos de massa de pão parece continuar ali entranhado e o calor que se faz sentir leva a olhar insistentemente para a lareira e sentir o fogo a queimar a pedra do chão, as labaredas a chamuscar a parede caiada de branco, o som do crepitar da lenha do sobreiro, o som das vozes em redor do chupão, as gargalhadas a subir pelas paredes. Tapou os ouvidos, pressionou fortemente as mãos sobre as orelhas para não deixar entrar as vozes dos pais, dos avós e dos irmãos, das conversas das noites frias de Natal. Correu, correu, tropeçou nas ervas do quintal, mas atravessou aqueles míseros metros quadrados com a facilidade de um atleta profissional de corrida de obstáculos. Parou somente junto do muro. Subiu ao tijolo de arestas já partidas lá encostado. Quando era pequena, fazia equilibrismo sobre três tijolos para chegar ao cimo do muro. Subiu ao tijolo, espreitou pelo muro, e viu a planície a perder de vista, tranquila, imaculada, igual à planície da sua infância. Sorriu. Sentiu-se protegida, feliz por voltar a casa. E sem medo de entrar em casa.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-8268767137273955736?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/8268767137273955736/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=8268767137273955736' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8268767137273955736'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8268767137273955736'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/06/casa-adormecida.html' title='A CASA ADORMECIDA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-4860473069230598754</id><published>2007-05-29T23:08:00.000+01:00</published><updated>2007-06-02T21:24:58.800+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias passados'/><title type='text'>TERCEIRA FILA C, CADEIRA QUATRO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O som seco das batidas no palco de madeira dá início ao espectáculo. Os actores sucedem-se naquele espaço minúsculo, grande como o mundo. As luzes da sala descem, o palco ilumina-se. Ivone está sentada na terceira fila, letra C, na cadeira quatro. Escolhe sempre aquele lugar. O lugar ideal para a deixar entrar em cena sem perturbar o espectáculo. A distância que permite conhecer as imperfeições dos corpos dos actores, ver a maquilhagem que esborrata, o suor que cai, sem nunca estragar a perfeição da personagem. Ajeita-se na cadeira de napa vermelha, a cor viva, escarlate, quase a estrear, endireita a saia e retira as luvas castanhas, pequenas, delicadas. Discretamente, limpa os cantos da boca, não tenha o baton descambado. Afofa levemente o cabelo. Parece pronta para entrar em cena. O primeiro actor, um homem baixo, de meia-idade, surge detrás da cortina vermelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas horas e meia depois, termina a peça. O público ovaciona, os actores repetem a vénia três vezes. Até que desaparecem definitivamente por detrás da cortina vermelha. Quando se levanta, repara no seu nome escrito nas costas daquela cadeira. Não percebe. E repara nas outras poltronas também elas baptizadas. Placas reluzentes, em chapa dourada, aparafusadas naquelas cadeiras de napa vermelha, comida do uso. Uso seu e dos outros. Reconhece os nomes: Afonso, Mariazinha, Viriato. Reconhece os amigos ali sentados, desconhece as pessoas presentes naquele lugar. Gente que se conhece e Ivone desconhece. Está confusa. E foge. Corre para a rua. Inspira. Respira. Inspira. Respira. Fecha os olhos. Ouve o barulho. O coração bate. O seu, da cidade que vive. Abre os olhos e vê. Vê um jornal abandonado no chão: a importância relativa das coisas. Vê a data. Agora percebe: a importância relativa do tempo. A cidade vive, continua a viver. Ela está morta: a importância relativa das pessoas. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-4860473069230598754?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/4860473069230598754/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=4860473069230598754' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4860473069230598754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/4860473069230598754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/05/terceira-fila-c-cadeira-quatro.html' title='TERCEIRA FILA C, CADEIRA QUATRO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-8566088985251120067</id><published>2007-02-28T15:24:00.000Z</published><updated>2007-02-28T15:38:33.853Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inocências'/><title type='text'>OS PRIMEIROS PASSOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Entre o sofá e a mesa distam oito passos, pouco mais de um metro. Pouco para os adultos, um mar de distância para um bebé. O bebé bebe a água, brinca com uma cafeteira de metal com a atenção e a dedicação que daria ao brinquedo mais caro. Bate com o metal no chão, fica feliz com o barulho que a caneca de esmalte emite no chão de madeira. Sorri, mostra os dentes salteados na boca. Vem aí mais um, a baba que corre pelos cantos, que o babete branco de pano turco e com um cordeiro bordado apara confirma-o. A mãe, cansada, senta-se no sofá. Está cansada do trabalho, de correr de um lado para o outro, fez o jantar, arrumou a cozinha. O dia está a chegar ao fim. O bebé terá sono, a mãe tem sono. Não tarda vão deitar-se. O bebé continua a brincar com a caneca, agora também com uma bolinha saltitona. A mãe viaja pelos canais de televisão sem se fixar em nenhum. Não há novidades que àquela hora prendam a sua atenção. O dia vai terminar sem mais novidades. A mãe deixa cair a cabeça para trás, apoia-a no sofá e olha para o bebé. Está de pé, encostado ao sofá, está a beber água pelo biberão pequeno, desencosta-se do sofá, os pés pequenos, com sapatos pequenos, vacilam no chão, vira o corpo, dá um passo em frente e continua corajoso, dá outro e depois outros. Passos. Pequenos, cautelosos, inseguros. E continua. Chega à mesa no centro da sala, pára de beber, coloca o biberão em cima da mesa. Cai no tapete que rodeia a mesa pequena. Sorri para a mãe, com os dentes salteados, com a baba a cair pelo babete. A mãe sorri, pega no telemóvel e diz para o outro lado: tenho uma novidade, ele já anda sozinho!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-8566088985251120067?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/8566088985251120067/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=8566088985251120067' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8566088985251120067'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8566088985251120067'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/02/os-primeiros-passos.html' title='OS PRIMEIROS PASSOS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-115127198589661388</id><published>2007-02-20T22:45:00.000Z</published><updated>2007-02-21T00:50:51.742Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>ALMOÇOS DE DOMINGO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;É preciso levantar cedo. Mesmo ao domingo. Uma boa esposa, uma mulher que se quer respeitada não pode passar a manhã na cama, mesmo que seja domingo. De manhã se começa o dia. Sempre foi assim, sempre fui assim. Assim fui educada. Pensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio impera na rua atolada de carros de todas as maneiras e feitios. As persianas estão quase todas corridas. Não se ouvem vozes, nem crianças. Está sozinha na paragem do autocarro. O lenço floreado bem apertado no pescoço para enganar o frio, braços cruzados, o bilhete da camioneta quase esmagado entre os dedos, a cesta de verga abandonada junto aos pés. O pensamento na lista das compras. Alzira vai ao mercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolhe as hortaliças, regateia preços, torce o nariz ao peixe, faz-se difícil, espera pelo desconto. Regateia, fala, conversa. Olha a cesta cheia e orgulha-se de ser uma boa dona de casa, em casa orgulhar-se-ão, com certeza, da sua proeza, de ter comprado tanto e gasto tão pouco. Vem com a aventura da manhã na ponta da língua, mas ninguém responde ao seu bom dia, não há ninguém para contar. Na cozinha, há migalhas e uma caneca suja de café sobre o lava-loiças. O marido já saiu, foi ter com os amigos. Alzira vira-se para a televisão. Conta-lhe a sua aventura, indiferente a saber se a ouviram ou não. O padre, que preside à missa em directo dos estúdios, parece responder-lhe, diz-lhe: Amén. Ela concorda: Amén.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma mulher atarefada aquela que deambula pela cozinha. Dá atenção ao fogão, corta as batatas e, nos intervalos, põe a mesa na sala de jantar. Desde que os filhos saíram de casa, os almoços de família passaram a ter lugar na sala de jantar, a sala das visitas, na mesa grande. Abre as abas da mesa. Leva mais umas cadeiras da cozinha para caberem todos. Tira o serviço de dúzia da cristaleira, do enxoval, o faqueiro grande também. Dispõe os pratos na mesa, os pratos acotovelam-se por espaço, disputam o espaço ainda com os talheres, com os copos e com o tacho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A campainha toca e a porta abre-se. A campainha volta a tocar, alguém vai abrir a porta. Estão todos à mesa. As filhas falam com as noras. Os filhos com os genros. Os netos brincam entre si. O marido tenta ouvir o noticiário na televisão. Estão todos a falar. Ninguém se ouve. Alzira está em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alzira é um vai-vém entre a cozinha e a sala de jantar. Vai buscar o sal que falta, leva a salada já temperada, revela a sobremesa no final da refeição. Acabaram de comer. Saem. Vão beber café, vão para a rua fumar cigarros, as crianças vão para o quintal jogar à bola e à apanhada. O silêncio voltou à casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senta-se à mesa, finalmente. O prato, aviado, acabou por arrefecer. Liga a televisão. Na novela da tarde, uma mulher também almoça sozinha e faz-lhe companhia durante o repasto.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-115127198589661388?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/115127198589661388/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=115127198589661388' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115127198589661388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115127198589661388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/06/almoos-de-domigo.html' title='ALMOÇOS DE DOMINGO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-165309281020007913</id><published>2007-02-08T20:51:00.001Z</published><updated>2008-05-01T17:43:09.106+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>A CORRIDA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O som seco da porta a bater traz consigo o aconchego. Lá fora chove copiosamente, os condutores apitam exaltados com o tempo, com as horas. Ali dentro, no interior do carro, há um silêncio guardado pelas portas e vidros fechados, uma paz confortável que assenta nos bancos largos de napa. A mulher olha para fora, para as janelas velhas, de prédios velhos, que escondem lá dentro outros velhos. Lisboa envelheceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De partida da cidade, entra nesta história Anselmo. O trânsito está parado e adivinha-se uma longa viagem, de pára e arranca até aos subúrbios, para onde Lisboa, a cidade, expulsou os filhos mais novos. Anselmo, taxista de profissão, trava conversa com a mulher. Conta uma piada, comenta as notícias do dia do jornal que ela folheia, quebra o gelo com a cliente, tolhe o mato do desconhecido e abre caminho para contar, naquela viagem, a corrida da sua vida. Nem sempre de corridas de táxi foi feita a vida daquele homem com mais de sessenta e menos de setenta. Há dezassete anos taxista, outros tantos suinicultor e um casamento que o acompanhou sempre. Ao falar da esposa, o tom de voz muda, torna-se terno, comovido, isola a buzina que se faz ouvir lá fora. O condutor irado posiciona o veículo na faixa ao lado do táxi, abre o vidro, gesticula. Anselmo não liga, nem o vê, está bem longe do viaduto Duarte Pacheco. Vai a caminho da Mealhada, só para comer leitão. Compensa a viagem e a cara de surpresa da sua senhora, que saiu de casa só para beber café e parou duzentos quilómetros depois. E ri-se. Porque recorda o riso da companheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltamos à chuva e ao trânsito, agora o IC 19, uma hora depois, o destino da corrida. Mas a história de Anselmo não termina aqui. Faz as contas ao taxímetro, conta o troco, orgulha-se de não ser um homem rico, mas um homem honesto. A mulher pega no chapéu-de-chuva e na mala, abre a porta de trás do carro. Ouve-se novamente o barulho lá fora, a chuva e o vento. Ele puxa-a mais uns segundos para a paz do táxi e para as suas aventuras. Ainda não lhe disse tudo: gosto mesmo é de dançar, aos domingos trabalho um bocadinho e, a seguir, corro aí os bailes todos das redondezas com a minha senhora. Despedem-se como dois conhecidos. Desejam encontrar-se noutras corridas, para outras histórias.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-165309281020007913?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/165309281020007913/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=165309281020007913' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/165309281020007913'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/165309281020007913'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/02/corrida.html' title='A CORRIDA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-8965859353835248035</id><published>2007-02-05T15:52:00.000Z</published><updated>2007-02-06T12:31:09.286Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Perfeitos'/><title type='text'>FIM DE TARDE NO TERRAÇO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;De mãos dadas, Augusto e Teresa sobem a escadaria de cimento. Ele segura-a com força, aperta-lhe muito a mão, tem receio que ela caia. Há cinquenta anos também teve medo de perdê-la. Também a apertou com força. Ela preparava-se para partir com os pais, mudar de continente, deixar a vida que conhecia para trás, deixá-lo nessa vida. Na hora da despedida, no meio do jardim, sob o olhar cúmplice do Tejo, ele puxou-a pelo braço, arrebatou-a contra o peito, beijou-a, disse-lhe que a amava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes, como agora. As pernas de Teresa estão preguiçosas e custam a subir as escadas inacabadas da casa por terminar. Não há corrimão, mas Teresa apoia-se em Augusto, o seu pilar de vida. Finalmente chegam ao terraço, o tijolo a nu, o chão de cimento mal rebocado. O sorriso nos lábios dos dois. De mão dada, olham a paisagem de sempre, o rio de toda a vida, o olhar perde-se até onde os prédios construídos nos últimos trinta anos permite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão felizes, as mãos dadas, sobre um céu cinzento que deixa o sol espreitar. A subida até ali não foi fácil. A menina prendada, de boas famílias, só estava preparada para servir chá. A adaptação ao mundo do marido, padeiro de profissão, não foi fácil, mas nunca faltou pão à mesa. Foi o pão que os uniu. Na cozinha grande da casa dos pais, Teresa conheceu um rapaz galante e educado nas maneiras, apesar da farinha que lhe saltava da camisa e das calças. O amor cresceu, como fermento no pão, todos os dias, pela manhã, com o aval da governanta que, amiga, não denunciava os amantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia em que as malas já estavam prontas, não se encontraram na cozinha. Teresa marcou encontro com Augusto no jardim. Ia despedir-se dele. Acabou por não embarcar. O avião que agora chega a Lisboa, cruzou provavelmente o oceano. Ela nunca. O seu horizonte não foi além do Tejo. E, no entanto, não conhece limites. A casa inacabada continua à espera de dinheiro para ser acabada. Talvez esse dinheiro nunca chegue. Os filhos, já criados, seguiram com as suas vidas longe dali. Augusto e Teresa estão reformados. E sós. Como no início. Apaixonados como sempre. Aquela não é uma obra inacabada, aquela é uma obra em construção, como Teresa e Augusto constroem um pouco mais do seu amor todos os dias. Pelo andar da coisa, a casa vai crescer até tocar no céu.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-8965859353835248035?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/8965859353835248035/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=8965859353835248035' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8965859353835248035'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/8965859353835248035'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/02/fim-de-tarde-no-terrao.html' title='FIM DE TARDE NO TERRAÇO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116951442484228337</id><published>2007-01-23T00:52:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:43:45.396Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias passados'/><title type='text'>UM ADEUS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O corpo não obedece, a mão não obedece. Está aqui pendurada, assim como as pernas. Não têm forças. Obra dos calmantes, que me entorpecem os nervos e os músculos. Não comando nada em mim, nem o cérebro, que ainda agora pensava nas flores e antes tinha recuado vinte anos, trinta anos. E volto às flores, e à roupa. Deixa-me ir ver se o vestido está bem passado. Ai as pernas que não têm forças, eu que me esforço por alcançá-la. Eu aqui no banco de madeira e a mãe aí. Eu aqui e a mãe aí. Estamos perto. É longe. Sou um corpo vão, sem querer, sem forças, como o seu, mãe, que jaz à minha frente. Há bocado achei que era tudo invenção da minha cabeça, e que esta gente toda, que aqui estava a acompanhá-la, também era invenção da minha cabeça. Por isso, aproximei-me de si, ouvi a sua respiração, vi-a a entrar curvada pela porta de casa. Sentada na mesa, a sorver devagarinho a canja da galinha, da capoeira do quintal, da aldeia. Sentada no sofá, com o olhar distante, no vazio, as cataratas a poluir a visão da rua, da cidade, tão diferente da aldeia. E aqui, deitada, com a mesma expressão que a espreitava à noite enquanto dormia, para verificar se estava tudo bem, e aí podia eu deitar-me descansada. A mesma cara serena, o rosto de criança velha. O rosto está frio. As mãos estão frias. O corpo gelado, rijo, irreversível. Já não sinto a respiração de há pouco. Quando voltar a casa, a casa estará igual sem estar na mesma. Na cama, no sofá, na mesa, estará presente a sua ausência. A dor acaba por ir, por se desfazer na poeira dos dias, assim as Escrituras dizem que todos somos pó e em pó nos transformaremos, como a epiderme se regenera e fecha a ferida, deixando só a marca. A recordação. Tenho coleccionado tantas cicatrizes, o meu rosto envelheceu dez anos de ontem para hoje. O meu corpo, que não me obedece, não parece meu, tal como o seu já não lhe pertence.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116951442484228337?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116951442484228337/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116951442484228337' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116951442484228337'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116951442484228337'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/01/um-adeus.html' title='UM ADEUS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116941036637872595</id><published>2007-01-21T12:00:00.000Z</published><updated>2007-01-21T20:23:22.416Z</updated><title type='text'>N.A. - NOTA DA AUTORA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Amanhã faz um ano. O Amanhã faz um ano. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;São histórias de dias iguais a tantos outros mas que marcam a diferença. São histórias de marias ou manéis anónimos mas que são protagonistas daquele momento e daquele dia. O mote do blog é: há dias bons e outros menos bons e há sempre o dia seguinte...porque a esperança continua viva como nós continuamos a respirar e o coração a bater no dia seguinte: amanhã.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116941036637872595?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116941036637872595/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116941036637872595' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116941036637872595'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116941036637872595'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/01/na-nota-da-autora.html' title='N.A. - NOTA DA AUTORA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116877459938742021</id><published>2007-01-14T11:34:00.000Z</published><updated>2007-01-15T12:17:02.800Z</updated><title type='text'>UMA PORTUGUESA NA CALÇADA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Cai no chão, na pedra. Está prostrada na calçada portuguesa. Magoou a cabeça, tem um sangue vermelho escuro a crescer na testa. O rio fino desce pela face e quando já não encontra pele, cai como uma catarata na pedra, esconde-se na fissura das pedras para morrer na foz, na terra por baixo dos cubos da calçada. Não se mexe, faz-se silêncio. O silêncio é bom, tem um sabor a paz. Não desgosta daquele estado. Estava cansada, sabe-lhe bem descansar. Há anos que anda pela vida, a correr sem parar, a tentar alcançar aquilo que não consegue alcançar. Não se lembra de descansar, de parar para ter férias ou, simplesmente, para pensar que os objectivos a atingir já deixaram de existir. Os velhos já não têm pernas para correr atrás de uma outra vida porque hoje em dia é-se velho aos trinta e cinco e morre-se aos cem quase. Pelo meio, são um exército de vegetais impotentes que vivem dos remorsos por não ter conseguido conquistar aquela conquista antes da idade da velhice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas aproximam-se, rodeiam-na, por compaixão mais por curiosidade. Vêem os estragos, comentam aquilo que não viram acontecer. Não sabem que ela está a vê-los. Alguém fala com ela, um homem, pergunta-lhe se está a ouvir, como é que se sente, qual o nome dela. Ouve-o, mas não lhe responde, não lhe apetece responder. Ela não é ninguém. Quer ficar naquela paz, adormecer na mudez da sua voz. Esquecer a sua existência que não existiu. Pergunta-se se alguma vez viveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega o INEM. A sirene desperta-a do sono a meio caminho. Os paramédicos afastam o circo em redor da vítima. Foi vítima uma vida inteira e hoje, pela primeira vez, alguém a tratou assim. Nunca gostou de se fazer passar por vítima. É um homem novo e uma rapariga que lhe endireitam o corpo, que lhe tocam suavemente na cabeça, como se fizessem festas na cabeça de um bebé para o adormecer. Entre si, dizem: tem um pequeno traumatismo, mas vai ficar bem. Abre os olhos pela primeira vez e o azul do céu afinal está tão longe. A ambulância parte a alta velocidade. É uma carrinha amarela viva, com luzes azuis no topo, com um grito que pede a todos os carros para se afastarem. Quem vê e ouve a ambulância não sabe se lá dentro vai alguém às portas da morte ou se há uma vida com urgência para nascer. Ela pensa sempre assim. E assim não é mentira nenhuma. Ali dentro, na maca, vai uma mulher que há pouco queria morrer e agora só ambiciona renascer.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116877459938742021?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116877459938742021/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116877459938742021' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116877459938742021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116877459938742021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/01/uma-portuguesa-na-calada.html' title='UMA PORTUGUESA NA CALÇADA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116845676746661579</id><published>2007-01-10T19:12:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:44:15.201Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Perfeitos'/><title type='text'>UM AMOR NA CIDADE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Deixou-lhe um papel dobrado em quatro na recepção do hotel, guardado num envelope amarelo com perfume a baunilha. O recepcionista, na casa dos cinquenta, riu-se discretamente. Ela ficou um pouco corada. Sempre que ficava vermelha, realçavam-se-lhe as sardas e acentuava-se-lhe o ar de menina colegial que já não era. Ninguém lhe dava mais de dezoito, vinte anos, mas o bilhete de identidade acusava quase trinta. Abandonou o hotel em passos pequeninos, em pontas, tal e qual uma bailarina a deslizar com leveza por um palco. À sua passagem as pessoas paravam para inalar a música silenciosa que ela largava como se fosse perfume. O perfume confundiu-se com o das rosas que a vendedora ambulante vendia na Rua Augusta e misturou-se com o cheiro das castanhas assadas na Praça da Figueira. Sentia o cheiro à terra molhada do campo no meio da cidade. Parou no meio da Terreiro do Paço, no meio da chuva, os braços abertos, um sorriso de concertina. Debaixo de uma arcada, uma menina com cinco anos se tanto, observa-a e sorria. Quando abriu os olhos e reparou na criança, ela escondeu-se envergonhada atrás da mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Avançou a pé, pelas ruas da baixa, indiferente à chuva, alheia do barulho dos carros. Um amor assim não se esconde da cidade. Quando recebeu a mensagem no telemóvel, eram quatro da manhã, acordou. O &lt;em&gt;noc-noc&lt;/em&gt; do aviso de mensagem despertou-a. "Chego amanhã e fico no hotel de sempre e, como sempre, quero estar contigo". Sempre que estavam juntos o mundo desaparecia. Viviam contra o tempo numa relação sem espaço porque ele vivia em Nova Iorque e ela em Lisboa. Ele tinha a vida feita em Nova Iorque, ela nunca sobreviveria fora da sua Lisboa de Alfama e do Bairro Alto, da Graça e do Castelo, do Tejo. Ele queria levá-la para a América, dar-lhe o luxo de um apartamento de Manhattan e do seu amor todas as noites, tirá-la das águas furtadas que arrendava a custo com o seu ordenado de &lt;em&gt;barwoman&lt;/em&gt;. Ela sorria-lhe, mas tirá-la dali era como arrancar uma flor dum vaso. Ao fim de alguns dias, ia murchar. Sou a árvore do jardim, que não vai contigo para casa, mas que podes visitar sempre que quiseres – dizia-lhe. E sempre que podia, por necessidade ou porque ele fazia por calhar, as viagens de negócios que o traziam à Europa desembocavam sempre em Lisboa. Um, dois dias. Nunca mais. Ele justificava, invariavelmente, que os negócios não permitiam mais. Ela nunca questionava, sabia que ele tinha mulher e filhos do outro lado, na outra vida. Tocavam nas vidas sem nunca abrir o livro um do outro. Conheciam-se um ao outro sem nunca desvendarem as vidas. Era como se dançassem em redor de uma fogueira sem nunca caírem nela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou à estação do metropolitano da Baixa-Chiado com meia hora de avanço. Sentou-se num banco e perdeu-se a olhar para a confusão, a observar quem entrava e quem saía das carruagens nos sucessivos comboios que ali passavam, sem que a estação recuperasse o fôlego entre uns e outros. A estação tem um volume de passageiros de vários milhares ao dia. Um número grande, diluído na cidade. São uma massa anónima de gente que corre para o trabalho e para casa. Mas, esses milhares dividem-se em números, cada número é uma pessoa, cada pessoa encerra uma história. A sua cidade de mais de um milhão era, primeiro, uma cidade de pessoas e de histórias. Como ela. Com histórias de amor como a dela e dele. No bilhete, pedia-lhe para estar ali às cinco da tarde. Em ponto, ele apareceu. E desapareceram no meio da multidão.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116845676746661579?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116845676746661579/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116845676746661579' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116845676746661579'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116845676746661579'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/01/um-amor-na-cidade.html' title='UM AMOR NA CIDADE'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116775604085620567</id><published>2007-01-02T16:28:00.000Z</published><updated>2008-01-16T12:29:58.815Z</updated><title type='text'>SÓ HÁ UMA COISA A FAZER</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Com esforço, senta-se na cama. Ela sabe que não é assim, mas a cama baloiça como um barco em águas agitadas. São as malditas tonturas, vindas sabe-se lá de onde, que agora atormentam os seus setentas. Antes só tinha caído à cama uma vez, quando a brucelose se lhe entranhou no corpo. O barco navega no meio da tempestade, a lembrar o cacilheiro na única - graças a Deus - vez que nele andou, no meio de um Tejo revolto e de um nevoeiro cerrado. O estômago, que não estava feito àquelas coisas, não aguentou e só teve tempo de chegar à proa e deitar borda fora tudo aquilo que cabia dentro dela. Pensou que ia morrer e pensou nos filhos. Os seus anjos e a sua salvação que a idade adulta não deixou manter o sorriso e a inocência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joga-se para trás, cai com a cabeça na almofada e fita o tecto. Está tudo mais calmo, mais tranquilo. Os efeitos do candeeiro no tecto parecem as estrelas que contava nas noites de solidão que passava ao relento, deitada no atrelado, perdida no meio do campo, a guardar o rebanho de meia dúzia de cabeças de ovelhas. O tempo levou esses tempos e a brucelose as ovelhas. Recorda que precisa de se levantar, só quer ir até à casa de banho. Também na vida nunca pediu muito. Só queira ser feliz. Não foi. Guardou os poucos momentos de alegria de seis décadas como guardava, na infância, os bocadinhos de pão, em tempo de vacas magras e Segunda Guerra Mundial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chama pelo marido, um homem acabado que jaz sem saber no sofá da sala. Sabe que o faz em vão, porque ele não ouve, porque ele não tem forças para se segurar e para puxá-la da cama para fora. Faltam-lhe agora as forças que sobraram na juventude, quando lhe batia, sem dó por ela nem pelas lágrimas, primeiro assustadas e depois de revolta, da filha. Onde estaria o amor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma tentativa. Os braços esticados, agarrados aos lados da cama. As mãos a puxarem os lençóis e o colchão. Tudo mexe, ainda que lentamente. Está embalada por uma música suave que cantava ao filha, criada nos primeiros meses atrás do balcão da drogaria. Indiferente aos gritos dos homens, aquela criança dormia a sono solto dentro de um caixote de madeira. Não lhe deu dores de cabeça em pequeno, dobrou-as na idade adulta. Droga de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com coragem, e de uma só vez, tomou balanço e levantou-se. É preciso não ter medo. A vida é feita de altos e baixos. Depois de cair, só há uma coisa a fazer: levantar.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116775604085620567?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116775604085620567/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116775604085620567' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116775604085620567'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116775604085620567'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2007/01/s-h-uma-coisa-fazer.html' title='SÓ HÁ UMA COISA A FAZER'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116732505155581086</id><published>2006-12-28T16:56:00.000Z</published><updated>2006-12-28T17:07:59.346Z</updated><title type='text'>ROUPA VELHA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Veste a camisola preta de gola alta, com um ligeiro cheiro a naftalina, guardada há meses numa gaveta. O umbigo não se acanha e torna-se visível na faixa nua que separa a camisola das calças. A lã tem destas coisas. Encolhe. Porque ela já não está em idade de crescer. Pelo menos fisicamente. Já por dentro, muita coisa aconteceu. É criança e mulher e pesam-lhe as agruras de uma velha, que vive com esqueletos do passado. A camisola preta não é a única a precisar de reforma. Outras há que também precisam de se retirar, e que levem consigo saias e calças. Como devem partir também da vida pessoas e lembranças que lhe fazem mal à alma. Pela vida passam pessoas que agem e outras que se omitem. Pessoas que se fundem no tempo e no espaço. São roupa velha dos nossos anos vividos que não vale a pena guardar, nem mesmo em armários com cheiro a naftalina. Está atrasada para o trabalho, mas não se importa. Pega numa funda e despeja lá para dentro amigos que se demitiram do papel e namorados que não alcançaram o papel principal para sempre, família de sangue que só possuía veneno nas veias. Com as veias bem salientes da força que faz para carregar o saco, dirige-se para o caixote do lixo em passo ligeiro. Abre a tampa com o pedal e deita para aquele poço negro que se revela aos olhos os despojos da vida. De seguida, ajeita o decote e vai para o trabalho com o &lt;em&gt;tailleur&lt;/em&gt; novo. Uma nova mulher nasceu.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116732505155581086?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116732505155581086/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116732505155581086' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116732505155581086'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116732505155581086'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/12/roupa-velha.html' title='ROUPA VELHA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116679475184504968</id><published>2006-12-22T13:30:00.000Z</published><updated>2006-12-22T13:39:11.856Z</updated><title type='text'>NUMA MANHÃ DE DEZEMBRO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Era uma  mulher nova com alma de velho do Restelo, que não acreditava que as mudanças eram possíveis. Perdida num cais, a ver barcos e pessoas partirem. Partiram os sonhos que voltaram na palma da mão. Estendeu-a, reticente, a uma cigana que se ofereceu para ler o destino. Estava destinada a ser feliz. As linhas da mão coseram os retalhos da vida numa manta que lhe aqueceu o corpo e o coração. Um anjo chegou e levou-a numa manhã de Dezembro. De 25 de Dezembro.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116679475184504968?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116679475184504968/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116679475184504968' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116679475184504968'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116679475184504968'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/12/numa-manh-de-dezembro.html' title='NUMA MANHÃ DE DEZEMBRO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116602896148937152</id><published>2006-12-13T16:42:00.000Z</published><updated>2006-12-14T14:31:13.716Z</updated><title type='text'>O AMOR DE SEMPRE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Logo hoje o carro avariou. Logo hoje tinha uma reunião importante pela manhã, à qual vai, consequentemente, chegar atrasado. Logo hoje. Entrou na plataforma esbaforido, a segurar a gabardina e o computador portátil num dos braços. Olhou para o relógio da estação. Apercebendo-se de que ainda faltavam alguns minutos para o comboio, poisou a pasta com o computador, entalada entre as pernas. Vestiu a gabardina. Ajeitava a gravata quando o olhar se prendeu numa mulher, sentada alguns metros à frente. Observou a mulher que falava em surdina não se sabe bem com quem e viu a menina de seis anos e totós ruivos, com umas sardas bem marcadas, que lhe segredava ao ouvido "gosto de ti". De repente, virou costas, assustado, pareciam tocar-lhe no ombro. Era ela, num vestido de balão, preso pelos ombros, e pé descalço que o desafiava para jogar à apanhada. Apanhou-a lá pelos treze anos, num fim de tarde Dezembro, à saída da catequese e, nas traseiras da capela, descerrou-lhe um beijo. Ela ficou vermelha e fugiu. Acabou por parar debaixo do candeeiro da rua, para recuperar o fôlego da emoção, e a luz iluminou-lhe um sorriso tímido mas sincero. Esse foi o primeiro de muitos beijos trocados às escondidas, à medida que ambos cresciam por dentro e por fora. O último foi dado na praia, num mar de lágrimas, quando ele lhe disse que ia partir. Estudar para longe. Os dois iam levar vidas diferentes para futuros traçados por linhas de mãos que não se apertariam nunca mais. Beijaram-se e ela fugiu. Outra vez. Ele ainda gritou "amo-te", mas as palavras desapareceram no vento. O comboio surgiu ao fundo do túnel. Afinal estava enganado, as linhas do destino e dos caminhos (de ferro) cruzaram-se. Ele viu-a levantar-se e com ela surgir também uma barriga proeminente, até aí escondida pelo casaco de lã comprido. Ia correr até ela. Dizer-lhe as palavras que o vento no passado não tinha entregue. Abraçá-la, a ela e ao filho. Acrescentar: "nunca mais te vou deixar, nunca mais te vou perder". Não correu. Continuou junto às carruagens de primeira classe, enquanto ela permaneceu de pé, na zona das turísticas, uns metros mais à frente. É uma pena os anos não andarem para trás. Vinte anos separaram as suas vidas. Queria ter hibernado. Queria ter tido a coragem para não a ter abandonado naquela altura. E agora, gostava de ter falado com ela. E dizer àquele bebé que não é filho do amor dos dois, mas é o filho do seu amor de sempre.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116602896148937152?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116602896148937152/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116602896148937152' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116602896148937152'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116602896148937152'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/12/o-amor-de-sempre.html' title='O AMOR DE SEMPRE'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116558804167395467</id><published>2006-12-08T13:52:00.000Z</published><updated>2006-12-13T10:49:19.553Z</updated><title type='text'>COISAS PARA AQUELES DIAS ( E PARA OS OUTROS TAMBÉM)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Um dia por outro, apetece às mulheres comportarem-se como mulheres que são e que não parecem. Nada a ver com as tendências sexuais - essas bem definidas -, mas com as tendências da moda (apesar de ser gay também estar na moda). Qualquer revista dita feminina dita a moda, da Maria à Vogue, o que dá a sensção às mulheres que as lêem que a semelhança entre elas e uma esfregona de limpar o chão é total. O cabelo está feio, o corte é antiquado, as calças largas do ano passado são uma aberração neste ano em que se usam &lt;em&gt;leggings&lt;/em&gt;, e os sapatos parecem herança da juventude da avó (e não pensem que a teoria de que são &lt;em&gt;vintage&lt;/em&gt; - e por isso &lt;em&gt;fashion - &lt;/em&gt;cola). &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;Num desses dias, em que acordamos com vontade de ser a mulherzinha aprumada, orgulho da mãe que nos acha sempre mal vestidas e pouco femininas, resolvi calçar umas botas novas. Lindas. Camurça castanha e cano alto a perder de vista. Infelizmente, a acompanhar o tamanho do cano está o preço, mesmo em época de saldos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às nove da manhã de um dia de Outono frio e solarengo, deixei o parque de estacionamento em direcção ao escritório. Fui serena, mas não segura. Fomos feitos um para o outro. Eu e o meu par. Par de botas. Mas, a adaptação não foi fácil naqueles primeiros minutos. Nem nas horas seguintes. A verdade é que a bota nova, do pé direito, resolveu fazer-me a vida negra. Por pouco tempo. As malas das mulheres são autênticas drogarias, daquelas onde se encontra de tudo um pouco. Levei o braço até ao fundo do saco de lona, encontrei as chaves de casa sempre desaparecidas quando preciso delas, o baton do cieiro que andava à procura desde que o frio começou a apertar, o talão da lavandaria que me faltou quando quis levantar o casaco; e também uma bolsa de plástico amarelo, meio almofadada. Peguei na dita e, com discrição total, escapando a todos os olhares existentes num &lt;em&gt;open space, &lt;/em&gt;coloquei-a dentro da bota, junto ao tornozelo magoado. E senti-me limpa, fresca e livre para o resto do dia. Quem disse que os pensos higiénicos são só para aqueles dias?!...&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116558804167395467?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116558804167395467/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116558804167395467' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116558804167395467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116558804167395467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/12/coisas-para-aqueles-dias-e-para-os.html' title='COISAS PARA AQUELES DIAS ( E PARA OS OUTROS TAMBÉM)'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116458191417376416</id><published>2006-11-26T22:57:00.000Z</published><updated>2006-11-27T11:55:40.656Z</updated><title type='text'>AMANHÃ, À HORA DE SEMPRE NO MESMO LUGAR</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Sai de casa sempre por volta do meio-dia. Para trás, deixa a lida da casa já orientada. A cama impecavelmente feita, com a dobra do lençol irrepreensivelmente direita e vincada. O chão branco imaculadamente limpo, sem migalha ou fio de cabelo que se veja. As plantas foram regadas quando os primeiros raios de sol se manifestaram. E o gato também já ficou tratado. Fecha a porta da casa quase centenária onde sempre habitou. A casa pode ter quase cem anos, mas a porta não tem mais de meia dúzia. É feita de alumínio para aguentar as intempéries e a corrosão do tempo, como se a moradia estreita de primeiro andar aguentasse outros tantos anos. As goteiras do telhado chamam a atenção a toda a hora para tal neste Inverno chuvoso e o ranger do chão das escadas que acompanha os seus passos não é também ele um bom presságio. Mas, quando se fecha a porta, há que fechar os olhos a tudo isso, porque a saúde a mais não permite e a carteira pensa do mesmo modo. Afinal, essa história dos idosos receberem reformas de miséria não é só conversa dos jornalistas na televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sai de casa ao meio-dia e, em passo lento, como um carro em marcha fúnebre, desce a rua principal da vila. Pára para dois dedos de conversa com a Guilhermina, que leva os dias à janela, e cumprimenta o senhor Armindo da mercearia. Depois, aperta a mala coçada contra o peito e espera pelo sinal verde para os peões. Lembra-se de quando tudo aquilo era um deserto e assim se dá conta dos anos que já passaram por si sem precisar de confirmá-los no verso do Bilhete de Identidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com pontualidade britânica, entra na pastelaria/snack-bar/pronto-a-comer/padaria de fabrico próprio às doze horas e quinze minutos. Todos os empregados a cumprimentam com o carinho que se dedica a uma avó. Perguntam-lhe pela saúde, pelo gato. Discute o episódio da novela da noite anterior com a Lurdinha do quiosque albergado dentro do café e, em troca, a moça empresta-lhe uma revista cor-de-rosa para ler por um bocadinho. Cumpridora, devolve-las sempre. Não precisa fazer nada para que uma sopa bem quente e um prato do dia - carne ou peixe, dia sim dia não - surja na mesinha do canto, juntinho à janela. Por volta das treze apareço eu, por altura da sobremesa e com a revista já folheada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, hoje, o dia não obedeceu à rotina. Parei no semáforo vermelho, como sempre acontece àquela hora, olhei para a montra do café que fica na esquina, e a mulher de cabelos grisalhos e costas encurvadas, que vejo todos os dias naquela fracção de segundo que ali estou parada, não estava lá. Ela faltou ao nosso encontro silencioso. Apetecia-me sair do carro e perguntar por ela. E quem será ela? Curioso, imaginei-lhe a vida toda menos o nome.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116458191417376416?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116458191417376416/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116458191417376416' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116458191417376416'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116458191417376416'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/11/amanh-hora-de-sempre-no-mesmo-lugar.html' title='AMANHÃ, À HORA DE SEMPRE NO MESMO LUGAR'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116352010657484170</id><published>2006-11-14T15:39:00.000Z</published><updated>2006-11-18T23:29:46.960Z</updated><title type='text'>COM RUGAS E CEM SORRISOS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Há uma aragem que se levanta do chão. Uma poeira cinzenta que se ergue e se pega à roupa e à pele, deixando tudo encardido à sua passagem. Há um cheiro a gasóleo e a ferro quente que entra pelas narinas e intoxica os pulmões e me obriga a tossir. O corpo está enregelado. A saia de cambraia é demasiado fria para a época do ano, mas é a melhorzinha. Estreada no baptizado do filho mais velho da prima Catarina. A saia, ligeiramente &lt;em&gt;evasé&lt;/em&gt;, com dois machos à frente. Discreta. Com a bainha abaixo do joelho. Azul escura. Camisa branca só com o botão do colarinho aberto. Um casaco de lã fina a condizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio de pulso marca sete e cinco e o relógio da estação também. Acertei o relógio quando aqui cheguei e já confirmei três vezes que ele está certo. E com isto tudo, não me lembro a que horas aqui cheguei, mas, sei que era cedo, que o dia ainda não se tinha levantado e o barulho que ouvi pelo caminho reduzia-se ao som dos meus passos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o comboio não chega entretanto, não sei mais o que fazer. Já contei as traves de madeira da linha que estão ao alcance dos meus olhos e são cento e vinte e duas. Também mirei todos os painéis de publicidade espalhados pela plataforma e fiquei a saber que os sonhos se compram a crédito e que, pelos vistos, quem o faz é feliz, pois são sempre famílias felizes aquelas que desfilam nos anúncios. Os champôs fazem-nos mais bonitas e os cremes que a Claudia Schiffer apregoa são uma espécie de exército contra as rugas, apagando até as rugas de expressão. E pergunto-me: porquê. A minha avó Branquinha, com anos sem conta, nunca pôs mais nada na cara para além de água e sabonete e era tão bonita. Tinha rugas pequeninas, do tamanho de alfinetes espalhadas pela cara e outras bem vincadas, que mais pareciam valas cavadas na pele. Quando era pequenina e adormecia ao colo dela, lembro-me de tactear as rugas com os dedos. Uma textura irregular e ao mesmo tempo suave. A superfície da Lua deve ser assim. Questionava-me por que razão não tinha rugas e ela dizia-me que precisava viver muitas emoções para ficar com tantas rugas quanto ela. E, a seguir, apertava-me as bochechas, entaladas entre o polegar e o indicador. "Estás a ver? Já fazes aqui dois traços. Sabes o que são? Sinal de que ris muito!". E pergunto: quem é que quer esquecer os seus momentos mais felizes? Hoje já não tenho avó Branquinha para me apertar as bochechas. E, no entanto, herdei dela o melhor: o sorriso. Há na minha cara duas pregas profundas, que partem do nariz a acabam no queixo, envolvendo os lábios num abraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O comboio chegou, apita e parte em direcção a sul. E é com um sorriso fechado, que vinca bem essas pregas, deitado ao passageiro da frente, que disfarço o medo que me faz desfazer o bilhete nas mãos onde escondo o nervosismo da primeira viagem de comboio.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116352010657484170?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116352010657484170/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116352010657484170' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116352010657484170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116352010657484170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/11/com-rugas-e-cem-sorrisos.html' title='COM RUGAS E CEM SORRISOS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116292012801975585</id><published>2006-11-07T17:16:00.000Z</published><updated>2006-11-07T17:24:12.136Z</updated><title type='text'>DITADOS QUE DITAM OS DIAS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Se o arrependimento matasse estava aqui caídinha no chão. Estatelada sobre a tijoleira, sem dó nem piedade. Antes matasse, porque me estou aqui a roer de tal maneira, que vou ficar sem unhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jantar estava combinado para as oito e um quarto, mas, comecei a &lt;em&gt;stressar &lt;/em&gt;antes das duas da tarde. Primeiro com a cabeleireira que, em vez de fazer de mim a mulher sofisticada que não sou, resolveu meter-me uma carapaça com um diâmetro de 50 centímetros na cabeça. Vim para casa a bufar, depois de ter tido uma discussão monumental com a mulher e, no final, como se todo o paleio fosse em vão, eis que ela me apresenta uma conta parecida com ela, ou seja, gorda. E como não se deve chorar sobre leite derramado - nem queimado como o leite creme que tentei fazer no último jantar a dois - o melhor é ir às compras e não perder mais tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já que estou numa de ditados populares, aqui vai mais um: mais parecia um burro a olhar para um palácio. Não estava a olhar para um palácio, mas para a banca do peixe. E, se não era burro, era burra! A empregada olhou para mim com aquela expressão que não fala mas diz que está a gozar com a &lt;em&gt;dondoca&lt;/em&gt;. Apeteceu-me contar-lhe o meu drama. Desabafar com aquela senhora a tresandar a cheiro de peixe e com a farda menos &lt;em&gt;sexy&lt;/em&gt; do mundo que não sou &lt;em&gt;tiazoca&lt;/em&gt;. Que até sou uma miúda muito simples. Chorar naquele ombro largo as saudades que tenho saudades do meu cabelo comprido e natural, sempre despenteado. Fiz antes o papel da &lt;em&gt;petolante&lt;/em&gt; e apontei, com o dedo inseguro e um ar de entendida, para o peixe mais caro da banca. O cozinheiro há-de salvar-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se as aparências iludem, então, quem me viu sair da loja imaginou um motorista à minha espera, com uma cozinheira sapiente na cozinha de um qualquer palacete da linha. Não foi bem isso que aconteceu. O carro citadino, modelo comercial, já pediu a reforma há uns anos. No meu palácio T1, ali para os lados dos Olivais, só sobra uma gata esfomeada à minha espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Próximo capítulo: "Na cozinha com...". Não faz mal temperar com algum humor esta tarde por demais penosa. Chamei o Jamie, o Olivier, aquele puto inglês com muito jeito para a coisa e que tem uns livros com receitas e fotografias fantásticas. Com o Jamie, o livro, a um palmo do nariz, comecei a preparar a receita e, tenho a dizer que não tem nada a ver com a facilidade com que ele prepara na TV. O problema não é meu. Ele é que engana as pessoas. &lt;em&gt;Humm&lt;/em&gt;, bela descoberta que eu fiz. Depois de conseguir fazer alguma coisa do peixe, vou ligar para o The Sun.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio fez um ultimato às sete e resolvi encomendar comida japonesa, que está na moda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomar duche sem molhar o cabelo pode ser uma missão (quase) impossível e sobre a depilação nem falo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às oito e dez tocou o motoqueiro com a comida. Às oito e catorze, o Homem. O Homem chegou. Gaguejei, Esfreguei os olhos sem querer e trouxe o rímel atrás. Confessei que tinha um peixe moribundo na cozinha. Descalcei os sapatos de salto porque não aguentava mais as dores nos tornozelos. Os beijos dele sabiam a sopa sem sal e o sexo...bom...do salmão, mesmo morto teria tido mais...vida. Por isso, foi um dia com muita parra e pouca uva.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116292012801975585?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116292012801975585/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116292012801975585' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116292012801975585'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116292012801975585'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/11/ditados-que-ditam-os-dias.html' title='DITADOS QUE DITAM OS DIAS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116270085223833674</id><published>2006-11-05T04:23:00.000Z</published><updated>2006-11-06T12:37:00.146Z</updated><title type='text'>ATÉ DOMINGO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Vai em passo lento, embalada pelo ar quente dos cerca de trinta graus que se fazem sentir naquela tarde de Outono a puxar para Verão, Verão de São Martinho. E nem falta o cheiro a castanhas assadas da vendedora ambulante, abandonada num canto do jardim. Parece ela que nunca sai dali. É como a estátua do poeta que ninguém sabe quem é. A diferença é que ela não tem grafitis alojados nos pés. Mas, dá a sensação que é feita do mesmo ferro velho e corroído pelo tempo. De Verão vende gelados de cone. Doce ou simples. O doce custa mais dez cêntimos. O sabor é o mesmo: morango e baunilha. Assim que a chuva cai o carrinho vira assador de castanhas. De Verão ou de Inverno, sempre no mesmo sítio e com a mesma expressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jardim ficou para trás. Agora ergue-se à sua frente um portão enorme, também ele enferrujado pelo tempo e pela falta de manutenção. Desata o nó grosso da corda que segura as portadas. A fechadura há muito que se reformou. De par em par, os braços do portão abrem-se e dão as boas vindas a&lt;em&gt; Lili-ete&lt;/em&gt;. Gosta sempre de fazer esta pausa. Não sabe a origem do nome, mas soa-lhe a francês. &lt;em&gt;Mademoiselle Lili&lt;/em&gt;, era assim que ela queria ser chamada. Infelizmente, nunca ninguém a tratou assim. Nem a mãe. Só mesmo Liliete da Conceição. Antes fosse Liliana...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto avança pelo corredor central, a Mariana acena-lhe lá da fonte. E a Gertrudes grita "´Tás boa filha?" lá da ponta. É uma noiva a desfilar pelo meio da igreja em direcção ao altar, sorri para uma e outra, orgulhosa do &lt;em&gt;bouquet&lt;/em&gt; que carrega nos braços. É com um andar firme e seguro que agora se dirige ao seu amor. Pensa na maquilhagem que deve estar a borrar com tanto calor. São os nervos que invadem a barriga. Pensa nos olhares postos na barra do vestido. Olha o seu amor, tão lindo na foto como no dia do casamento, quando, tranquilo, aguardava a noiva no altar. Nunca foi noiva e, no entanto, sentiu tudo isso.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Tinha dezasseis anos quando conheceu o amor. Moça da aldeia e sexta filha de um casal de lavradores, depressa soube que os seus sonhos nunca passariam além da quarta classe. Mas, no momento que foi servir para casa de uns senhores ricos, ali para os lados de Cascais, descobriu que os príncipes das histórias são reais. Ele era mais velho uns anos e estava de casamento marcado. Consumado o matrimónio, mudou-se para casa do &lt;em&gt;Menino&lt;/em&gt; para ajudar a criar os filhos. Deu-lhes a atenção que daria aos seus e tratou da roupa e da comida do patrão melhor do que uma esposa perfeita. No quarto dos fundos onde dormia, encostado à cozinha, quis tantas vezes que ele rompesse pelo dormitório a meio da noite. Ouvia-lo chegar, a arrastar os chinelos nos pés, cuidadoso para não fazer muito barulho, mas os anos passaram-se e ele só ia à cozinha a meio da noite para beber um copo de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com os anos, o corpo de menina perdeu a graça e os cabelos brancos despoltaram como um exército na sua cabeça. Ele também não se conservou novo e a doença atacou o homem desprevenido, que fumava e bebia de mais. E, mais uma vez, Liliete foi uma enfermeira exímia. Limpou-lhe o suor e deu-lhe os comprimidos. Aturou-o nas horas de maior delírio. Esperou pela hora em que a doença o levou para se deitar, finalmente e por uma vez, na cama, ao seu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os filhos do patrão já estão criados e os netos dele, que são seus a seu modo, só lá vão de tempos a tempos. A senhora também se foi embora. Ela é, agora, a dona da casa. Liliete continua a fazer a mesma vida de sempre. Só os domingos são seus. Faça chuva ou faça sol, Liliete nunca falta…aos encontros ao domingo. Despe a farda e o avental e veste o fato da missa. Vai até ao centro da cidade. Trata-lo por tu. Trata-lo pelo nome. Chama-lhe Meu Amor. São longas as conversas entre eles.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Despede-se com um beijo na foto. Ajeita, pela última vez, o ramo na jarra. Acende a vela. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Até Domingo, meu Amor.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116270085223833674?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116270085223833674/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116270085223833674' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116270085223833674'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116270085223833674'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/11/at-domingo.html' title='ATÉ DOMINGO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116187083532440758</id><published>2006-10-26T14:31:00.000+01:00</published><updated>2006-12-14T14:34:28.580Z</updated><title type='text'>O DIA QUE MUDOU A VIDA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Era uma terça ou quarta talvez. Uma manhã como tantas outras em que Elisa cumpria a rotina de todos os dias. Levantar da cama pelas sete da manhã, após interromper o cantar de galo do despertador por duas vezes. Uma &lt;em&gt;almofada psicológica&lt;/em&gt;, chamemos-lhe assim. Isto porque Elisa não se podia atrasar nem um minuto ou, caso contrário, perdia o autocarro para a escola e eram quarenta minutos até lá chegar. Por isso, adiantava o relógio vinte minutos, parava-o por duas vezes e acabava por se levantar às sete certinhas. Com a agravante de que, olhando para o relógio e vendo que estava vinte minutos atrasada, começava a correr. A lógica é pouco rebuscada e facilmente corrompida, mas, para quem acaba de acordar, nada faz mesmo muito sentido. A verdade é que, de uma maneira ou de outra, os minutos estavam contados. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Todavia, naquele dia, algo atrapalhou - e de que maneira - o dia de Elisa.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Elisa levantou-se e chamou a mãe. Dona Mariana, mulher na casa dos quarenta e mentalidade de oitenta, com o corpo na cidade e a cabeça ainda na aldeia da infância. A doméstica, que engomava a roupa, largou o ferro, pôs os óculos de ver ao perto, e acompanhou a filha até ao quarto. Sem uma palavra, viu e saiu. Enquanto isso, a criança continuava a olhar incrédula. Voltou com uns panos almofadados. Entregou-os e disse: "Hoje tornaste-te uma mulherzinha. Não digas a ninguém. E vá, despacha-te. Estás atrasada."&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116187083532440758?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116187083532440758/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116187083532440758' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116187083532440758'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116187083532440758'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/10/o-dia-que-mudou-vida.html' title='O DIA QUE MUDOU A VIDA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116118911431699976</id><published>2006-10-18T16:35:00.000+01:00</published><updated>2006-11-06T16:37:06.446Z</updated><title type='text'>DIA DA LIBERDADE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O calendário marca 18 de Outubro, mas, Simone passa por uma florista e compra um cravo vermelho. Coloca-o na lapela, em concurso com as flores gradas do seu casaco &lt;em&gt;vintage&lt;/em&gt;. Passeia pela avenida de tronco direito e andar discretamente marchante. E um sorriso impossível de disfarçar! Ainda pensou em deitar o &lt;em&gt;soutien&lt;/em&gt; fora, fazer uma fogueira no meio da rua. Ora, tudo isso dava uma trabalheira e, depois, o que fazer com aquele cheiro a fumo, mais conhecido por "cheiro a cigano" (desculpas à comunidade cigana que não é nada contra ela). Decreta para si que aquele é o Dia da Liberdade.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Eram oito e pouco da manhã quando o grito de felicidade ecoou na cozinha. Não havia propriamente uma multidão de gente a ouvi-lo. Apenas um gato e, aí, levanta-se a questão: dede quando é que gato é gente. Avancemos camaradas. Verdade seja dito que o gato também não se manifestou muito efusivo, limitando-se a levantar o focinho da gamela do leite. O gesto, levado a custo porque a cusquice é uma questão de vida ou de morte, não durou mais do que dez segundos, e voltou a posar os olhos na gamela e a sorver o leite com um prazer audível. Danada, Simone respondeu aumentando o som da telefonia.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Devaneios à parte, olhou para o relógio e constatou que já estava atrasada. Para não variar. Há coisas que não mudam na rotina de todos os dias. E outras que se alteram. Nem que seja apenas por sete dias. "Só por isso, hoje vou comprar um cravo no caminho para o trabalho. Só para comemorar." Decisão tomada entre o carregar no pedal do caixote do lixo, deitar lá para dentro a embalagem de prata cor-de-rosa com 21 casulos perfurados que repetem três vezes os dias de semana, e fechar a tampa. Na rádio, ouvia-se o sinal horário. Simone correu para o banho.&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116118911431699976?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116118911431699976/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116118911431699976' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116118911431699976'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116118911431699976'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/10/dia-da-liberdade.html' title='DIA DA LIBERDADE'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116089907730684742</id><published>2006-10-15T08:27:00.000+01:00</published><updated>2006-11-06T16:46:31.506Z</updated><title type='text'>VELHAS GLÓRIAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Finalmente, chegou a chuva. Os pingos de água, muito tímidos, que até agora tinham caído no outono, não eram suficientes para lavar o bólide, parado naquela rua triste e feia há anos. Pelo aspecto da rua podemos adivinhar o que se passa dentro das casas. A sujidade e o caruncho das paredes com falta de tinta, parecem transpirar a falta de vida e de alegria que aqueles apartamentos encerram. Os prédios, construção do tempo da outra senhora, comprados por homens endinheirados para fins de arrendamento, num tempo em que arrendar casas compensava, são hoje depósitos de velhos abandonados, com demasiado medo para pôr o pé na rua, tal a confusão de carros e máquinas em redor. E, ainda mais, pelos assaltos a velhinhos de que se ouve falar na televisão. Diz o senhor do noticiário das oito, com ar jovem e cara de entendido na matéria, que aquela região se tornou numa das mais perigosas. Dizem que há muitos bairros sociais na periferia da capital e que os jovens estão todos desempregados. São uma espécie de morcegos, que dormem de dia e acordam ao final da tarde para, depois sim, espalhar o terror por aquelas bandas. Esse mundo, Aníbal só pode ver pela caixinha que já foi mágica, mas que, agora, é o entretém e o desespero dos seus dias. Ali fechado, fala com ela, grita com ela e beija-a no ecrã quando a solidão da viuvez ataca. &lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma vez por semana, muito à pressa e sempre a reclamar que a sua vida não é aquilo, passa ali por casa a Ana, a única filha, casada-descasada-junta-e-de-novo-junta, a quem o pai não sabe muito bem o que perguntar. Pergunta pelos miúdos de quem ela se limita a dizer vão bem, mas, nem se atreve a chamá-los pelos nomes. A memória prega-lhe partidas, de vez em quando, e, matreira, apaga-lhe o presente com uma borracha. Ana demora-se pouco. Deixa um saco de mercearias no lava-loiças da cozinha e despede-se dizendo: " O pai tem que pensar em ir para o lar que a minha vida não é isto. Até sábado." Quando Aníbal vai para responder, já a porta se fechou com toda a força, abalando o seu coração de velho. Ainda se arrasta até à janela para se despedir dela e dizer " Adeus filha, vai com cuidado e que Deus te abençoe", mas, a perna, preguiçosa após um AVC, atrasa-lhe a corrida contra o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana já está dentro carro, parte a toda a velocidade e sem olhar para a janela onde aquele velho prisioneiro lhe acena com o braço esticado. Quando o carro da filha abandona o estacionamento, deixa a descoberto outro velho, o VOLVO Amazon, antes azul cobalto e hoje azul comido do sol. As ervas já tomaram conta dos pneus e a ferrugem ganha terreno na chapa e nos puxadores da porta. O primeiro carro que Aníbal viu na vida foi um VOLVO, ainda vivia no monte. Aquele automóvel brilhante e imponente fê-lo largar a vida de agricultor e tentar a sorte na grande cidade. Mas, o cor-de-rosa da prosperidade da indústria depressa se tornou no negro do fumo que as chaminés das fábricas expeliam. Nem tudo foi mau. Durante anos esqueceu-se do seu sonho. Conheceu a Angelina numa noite de futebol em casa de um colega da fábrica, que lhe apresentou a irmã mais nova como não sendo água para o seu bico. Mas, pouco depois, estavam casados. E nove meses depois, nasceu a filha. Durante anos, preocupou-se em dar de comer à família. No entanto, um dia, o sonho voltou numa montra, no regresso do trabalho. O VOLVO, de ar imperial que vira na adolescência, era agora alimento de sucata. Mas, o seu sonho de ter um VOLVO continuava jovem e entranhado na sua cabeça, como se tivesse ganho raízes estes anos todos. Foi ao banco e mexeu nas poupanças. Vendeu a motorizada. Cortou na cerveja ao final da tarde no café da estação. E entrou, a medo, no stand de carros usados onde tinha visto o Amazon. Tinha meia dúzia de anos e uma mossa no guarda-lamas traseiro, mas, tudo se arranjaria. Se hoje tivesse que eleger o dia mais feliz da sua vida, falaria do dia em que voltou à terra - qual revolução de Abril - já com a filha crescida no banco de trás, a sua Angelina no banco da frente e ele ao volante do seu VOLVO azul forte como a barra das casas do monte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chuva não lhe trouxe a cor de volta, mas, pelo menos, limpou as teias de aranha que se multiplicam à medida que os anos passam. "A minha filha quer que eu vá para o lar. E, tu, precisas mas é de ir para a sucata...", conclui Aníbal ao fechar a janela. "Será que morremos e não sabemos?...".&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116089907730684742?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116089907730684742/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116089907730684742' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116089907730684742'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116089907730684742'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/10/velhas-glrias.html' title='VELHAS GLÓRIAS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-116032345893217406</id><published>2006-10-08T16:37:00.000+01:00</published><updated>2006-11-06T16:41:43.156Z</updated><title type='text'>OS DIAS QUE PASSAM</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Em frente do espelho, Cecíla segura um frasco numa mão e com a outra agarra um papel que lê com toda a atenção. São as instruções do creme anti-rugas que escolheu através do anúncio na televisão. Claudia Schiffer, numa voz que não é a sua, apregoa que aquele é o melhor para as primeiras rugas. Diz que o creme actua numa pele perfeitamente limpa. "É preciso tirar um curso só para isto", desabafa Cecília em alto e sem o problema de ter alguém a ouvir o grito do medo de envelhecer que há uns tempos a atormenta. Nunca usou destas coisas. Nunca se preocupou com tal. Muito pelo contrário, quando as hormonas ds raparigas começaram a alterar-se e queriam usar saltos altos e maquilhagem, Cecília passou ao lado de tudo. Continuou feliz com o seu ar de maria-rapaz e fez sucesso entre os rapazes à conta desse mesmo &lt;em&gt;look&lt;/em&gt;, meio infantil meio desleixado. Entre os rapazes e entre os homens, que se apaixonaram pela menina de porte atlético que não os arrastava para ver montras, mas antes para passeios de bicicleta. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que há uns tempos que Cecília olha para si ao espelho e já não vê essa menina. Está hoje mais perto dos quarenta do que dos trinta e os homens da sua idade procuram rimel e lábios carnudos. O ponto de viragem deu-se quando até a família deixou de lhe chamar Cila, como acontecia desde o berço, e passou a chamar-lhe Cecília sem nenhuma razão. Ou, se calhar, ela é que não viu que estava a envelhecer. Conheceu uma mulher que lhe chamaram toda a vida Menina Lurdinha e morreu com 88 anos. Sempre se questionou sobre isso e, quando a própria mãe a chamou pelo nome, de forma formal, questionou-a por que é que não podia ter o mesmo tratamento que a Menina Lurdinha. De forma curta, a mãe respondeu: "porque ela morreu virgem e, por isso, nunca soube o que é ser mulher. Eu ainda quero ter netos. Vê se cresces." &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando entrou na loja de cosmética para comprar o creme, o empregado, de cabelo grisalho e não mais de quarenta anos, ofereceu-se para ajudar a menina. Ela olhou para ele com um ar matador, ao que o homem corrigiu: "Peço desculpa, a senhora precisa de ajuda?". Cecília sorriu. Antes senhora do que virgem!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-116032345893217406?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/116032345893217406/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=116032345893217406' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116032345893217406'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/116032345893217406'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/10/os-dias-que-passam.html' title='OS DIAS QUE PASSAM'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-115808604884179510</id><published>2006-09-12T19:05:00.000+01:00</published><updated>2006-11-06T16:47:48.626Z</updated><title type='text'>MEU LINDO AGOSTO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A procissão termina no adro da igreja. Agora é que a festa vai começar. Religiosidades à parte, os pseudo-namorados anseiam por este momento. O rasto de Stephanie e Fábio perde-se no meio da confusão de andores e bancas. Correm de mão dada como se de fugitivos se tratassem pelo meio de carros e quintais. A rapariga pára, já não tem fôlego. Ele olha para um lado e para o outro e concorda em ficar por ali. Estão a salvo. A algazarra da festa ouve-se ao longe e um leve cheiro a chouriço assado faz-se sentir no ar. A aldeia está toda concentrada nos comes e bebes. Ninguém dará pela ausência deles lá e pela presença deles ali, escondidos atrás do muro do cemitério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fábio puxa o ar do fundo dos pulmões. Tem quinze anos e nunca beijou uma rapariga. Um segredo que nunca revelou a ninguém e muito menos à miúda de olhos verdes e sardas que está agora junto dele. Ela tem catorze e também nunca beijou um rapaz. Estudou todas as técnicas nas revistas de adolescentes, sem nunca as levar à prática. Mas isso são pormenores que não são para ali chamados. Quem é que precisa saber numa aldeia de Portugal que ela, Stephanie da Conceição Silva, jovem parisiense, não sabe beijar. De forma desajeitada, ele coloca as mãos sobre os ombros de Stephanie e empurra-lhe a boca contra os seus lábios. É quase um choque. Um daqueles choques que acontecem, por vezes, quando tocamos num carro ou num material eléctrico. Fitam o olhar um dos outro e pensam cada um para si que, afinal, não custou assim tanto. No futuro, já não terão medo do desconhecido. Stephanie pensa nos rapazes do liceu onde estuda, nos arredores de Paris, tantos deles filhos de emigrantes como os seus pais e acredita que o novo ano escolar vai ser diferente. Também Fábio recorda no pensamento a Ana e a Cátia, coleguinhas da escola EB 23 onde vai continuar este ano, depois de ter voltado a chumbar no oitavo. Coisa que não o preocupa muito. A escola é o melhor sítio do mundo.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;O silêncio das divagações é quebrado por um barulho estridente que grita "Shakira" em alto e bom som, capaz de acordar os mortos ao lado. A rapariga tira um telemóvel rosa fluorescente do bolso dos calções. É o pai. Não atende. Diz:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;- Adeus, tenho que me ir embora. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;E vai. Não há beijo de despedida, mas nenhum se importa.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;De volta à aldeia encontra o pai, de camisola de alças suada a tentar meter tudo no "cofre" do carro. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;- Onde é que andavas?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;- Por aí...&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;- Vai ajudar a tua mãe!&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Não são precisas mais explicações, até porque o pai já foi buscar mais uma cesta com chouriças e pão da terra, para atenuar durante uns dias as saudades do Portugal que voltará a ver em Agosto do ano que vem, se Deus quiser. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;- E pronto! Não cabe mais nada. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Começam as despedidads da família e dos amigos. A avó chora copiosamente. Já lá vão tantos anos, mas todos os verões não se conforma com a partida do filho. Quem não se importa de partir é Alan, o irmão mais novo de Stephanie, para quem as férias em Portugal sabem a tédio. Passa o mês completamente mudo. Não sabe falar português e nem quer aprender. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Finalmente, o Renault 21 de 1991 e matrícula francesa arranca, com o cano de escape a roçar pelo alcatrão, tal o peso que o carro leva. São mais de mil e quinhentos quilómetros e quase dois dias de viagem ao som de Tony Carreira&lt;/strong&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-115808604884179510?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/115808604884179510/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=115808604884179510' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115808604884179510'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115808604884179510'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/09/meu-lindo-agosto.html' title='MEU LINDO AGOSTO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-115720940774417869</id><published>2006-09-02T15:08:00.000+01:00</published><updated>2006-11-06T16:48:13.893Z</updated><title type='text'>TARDES DE SESTA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;A temperatura na rua ronda seguramente os 40 graus. Sufoca só o simples acto de meter a cabeça do lado &lt;em&gt;de fora&lt;/em&gt; do postigo. Até um citadino, acabado de chegar de Lisboa, consegue perceber por que razão é proibido andar &lt;em&gt;lá fora&lt;/em&gt; numa tarde de Agosto. &lt;em&gt;Lá fora&lt;/em&gt; é Alentejo profundo. &lt;em&gt;Cá dentro&lt;/em&gt; é uma casa com história, talvez com mais de cem anos, que essas coisas das escrituras não são tão antigas como estas paredes. Hoje é a casa da Avó, mas já foi a casa do Avô e do bisavô e de outras gerações sem luz eléctrica nem televisão. Cada parede tem a espessura de quatro palmos, que permitem estar aqui deitada, nesta cama de ferro, a dormir uma sesta ao fresco. Casas com ar condicionado são modernices que não se vêem por aqui. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estômago pesado - no final de um almoço farto de pão alentejano com queijo de cabra feito pela vizinha-prima-comadre que vive duas portas abaixo - obriga os olhos a quedarem-se. A última imagem que fica retida na retina é a do cão de língua de fora deitado no corredor, visível pela porta do quarto entreaberta. A menina de cabelos lisos de um castanho escuro e cara redonda, ajeita a cabeça na almofada branca do enxoval da Avó e acaba com o disfarce assim que as festas na cabeça terminam. O avô, que se deitou a seu lado com o intuito de adormecê-la, não resistiu e o sono venceu-o. Ela colocou-se então de barriga para cima e olhos fitos no tecto. Traída pelos sonhos, dormiu até às seis da tarde. Acordou vinte e cinco anos depois, com os pontapés do bebé que cresce dentro da sua barriga. Nesse momento, teve a certeza que ia ser mãe de uma menina.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-115720940774417869?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/115720940774417869/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=115720940774417869' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115720940774417869'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115720940774417869'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/09/tardes-de-sesta.html' title='TARDES DE SESTA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-115375358975490241</id><published>2006-07-24T16:01:00.000+01:00</published><updated>2006-08-03T17:53:01.116+01:00</updated><title type='text'>OS DIAS A FIO À CONVERSA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Teimosamente, os cabelos de Feliciana libertam-se do lenço que lhe cobre a cabeça e esvoaçam ao vento. Os fios, finos e outrora ruivos, são hoje brancos imaculados. Caem como cordas pela bata preta que traz vestida. Desde que o filho morreu, esta é a única cor a que se permite, deitando para fora a dor que sente por dentro já lá vão tantos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os dias, pela tardinha, Feliciana vai até ali. Ali é o banco de cimento pintado de branco que serve de muro das casas impecavelmente brancas e com uma risca azul clara onde vive. Ela e dezenas de famílias de pescadores. Moços e moças da sua mocidade que hoje rondam os oitenta. Nas costas ficam as casas, de frente tem o mar. Grande. Majestoso. Medonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De segunda a domingo, ao pôr-de-sol, Feliciana vai conversar com o filho, com o mar e com Deus. Fala-lhes da vida e do dia. Fica por ali até o sol se despedir e que a última onda leve as lembranças. Recordações dos tempos em que esperava pelo peixe fresco que chegava de madrugada, quando ainda existiam barcos de pesca e não pranchas de &lt;em&gt;surf&lt;/em&gt; por aquelas bandas. Numa altura em que as casas dos pescadores, humildes e baixinhas, ainda não tinham dado lugar aos apartamentos de três e quatro andares. Assim conheceu o seu Joaquim. Aprendiz de pescador, a cargo de um tio que o mandou vir da província porque precisava de mais braços para trabalhar na apanha do pescado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou a espreitar o mar à espera do seu Joaquim, com a alegria de uma criança que se prepara para abrir os presentes na manhã do dia de Natal. Depois de casada, começou a espreitar aquelas águas com apreensão. Quando o filho - único filho - também escolheu aquela vida, começou a olhar para o mar com desespero. A vida do filho que foi também a sua morte. Num dia de tempestade perdeu-se para sempre. Nem o corpo conseguiram resgatar para fazer o funeral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida de Feliciana e Joaquim nunca mais foi a mesma. Convivem no silêncio da casa. Feliciana praticamente não abre a boca. Apenas diz ao marido, dia após dia, quando sai à tardinha, que vai falar com o filho. Já Joaquim virou costas ao mar a partir desse dia e nunca mais encarou as águas, apesar de o mar se impor ao olhar sempre que abre a porta de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, a rotina de Joaquim mudou. À tardinha, saiu de casa e não virou para a igreja, de encontro aos amigos que matam o tempo com conversas de outros tempos, como habitualmente. Respirou fundo e olhou de frente o monstro. O mar. Foi conversar com a mulher. Na noite anterior, Feliciana não voltou para casa e Joaquim não saiu a procurá-la. Ele sabia. Feliciana foi ter com o filho.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-115375358975490241?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/115375358975490241/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=115375358975490241' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115375358975490241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115375358975490241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/07/os-dias-fio-conversa.html' title='OS DIAS A FIO À CONVERSA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-115315095978421683</id><published>2006-07-17T16:34:00.000+01:00</published><updated>2006-07-18T07:17:17.386+01:00</updated><title type='text'>DIAS DE SOLIDÃO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Chegou no momento certo. Naquele momento em que a sala está cheia e as luzes ainda não se apagaram. Rosângela pede “licença, por favô”, no seu sotaque brasileiro. Os espectadores que chegaram a horas encolhem as pernas e desaparecem nas cadeiras para permitir a passagem da mulher. Muito lentamente, Rosângela percorre a imensa fila de cadeiras até meio e vai roçando bem as pernas pelos homens que encontra - sós ou acompanhados, tanto faz - e espeta o rabo à passagem por um grupo de rapazes. Com desilusão, olha para o lugar que lhe calhou. O ar desapontado e a curva descendente no canto do lábio não deixam margem para dúvida. Volta a confirmar o lugar e a fila e resigna-se a ficar sentada entre duas mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rosângela, brasileira do nordeste, cabelo longo e anca e “bunda” farta, veio para Portugal em busca do El Dourado, mas, encontrou primeiro a chuva e o frio do Inverno português e a fome. Depois, veio um bar onde não servia ao balcão, mas devia “servir” os clientes. Fugiu dali e daquela cidade. Sozinha com a fome, poupava nas moedas para ligar à família e dizer que “tá tudo legau”. Na falta de cobertores, dormia abraçada às fotografias dos sobrinhos e da mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pesadelo tem três anos e já deitou para trás das costas. Agora ganha a vida a limpar escadas e a trabalhar em casa de senhoras ricas ali para os lados do Restelo. Ao fim-de-semana, dá-se a um pequeno luxo: cinema. Podia dar-lhe para ir à igreja e virar beata ou podia dar-lhe para coisas bem piores daquelas que se ouvem na têvê. Mas não. Cinema até é politicamente correcto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já viu centenas de filmes, mas não se lembra de nenhum. Percorre salas e fitas em busca do argumento perfeito, em que ela é personagem principal. Rosângela procura o amor e hoje escolheu um filme de animação num cinema de um centro comercial onde os pais divorciados levam os filhos ao fim-de-semana. Mas, enganou-se na sala. Comprou bilhete para a versão original, em inglês. Ficou no meio dos casais de namorados e deixou a sua hipotética felicidade fugir na sala ao lado onde decorre a versão portuguesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Riu alto e exageradamente, enquanto o seu coração gritava e chorava. Todos deram pela sua presença e ninguém lhe ligou…Quando o filme terminou, deixou o público sair e ficou com o olhar pregado nos créditos do filme, mas tão distante quanto a lua. A música acabou e o último casal, perdido em beijos, levantou-se. Só restava ela. Pegou no copo de Coca-cola e no pacote das pipocas meio cheio e saiu. Foi procurar a felicidade numa sala perto de si.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-115315095978421683?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/115315095978421683/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=115315095978421683' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115315095978421683'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115315095978421683'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/07/dias-de-solido.html' title='DIAS DE SOLIDÃO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-115272605907378252</id><published>2006-07-12T18:32:00.000+01:00</published><updated>2006-07-12T18:40:59.083+01:00</updated><title type='text'>40 SEMANAS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Comecei por não gostar de ti. Por não te querer, em mim e na minha vida. Comecei por te odiar. Quando soube que estavas cá, sofri um choque. Caí no chão, desmaiei. Não quis acreditar, apesar das pessoas à minha volta confirmarem a tua presença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os primeiros meses foram complicados. Não falava contigo. Lá no fundo, todas as noites me deitava com o desejo de acordar no dia seguinte e descobrir que tudo tinha sido um pesadelo. Mas, perseguias-me para todo o lado e a todas as horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um dia olhei para o espelho, reparei que o meu corpo estava deformado. O tempo não voltava para trás. Nessa noite, não chorei. E, na seguinte, consegui falar contigo. Ao fim de quarenta semanas, continuamos inseparáveis no espaço e nas horas. Já deste a volta e eu dei a volta à vida e rio-me hoje das voltas que a vida dá. Acaricio-te a cabeça que faz pressão sobre a minha bexiga e não me pesam os vinte quilos que engordei nem as horas de sono que perdi pelo desconforto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fim de quarenta semanas vou, finalmente, conhecer o teu rosto, mas já conheço os teus gostos. De como reages com alegria quando ouves a voz do pai e ele coloca a mão na minha barriga à espera de te sentir e tu retribuis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha filha, comecei por não gostar de ti. Mas, vou amar-te para sempre.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-115272605907378252?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/115272605907378252/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=115272605907378252' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115272605907378252'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115272605907378252'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/07/40-semanas.html' title='40 SEMANAS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-115239972411321567</id><published>2006-07-09T00:01:00.000+01:00</published><updated>2007-02-06T14:42:50.043Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>DIAS DE MUNDIAL</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Pouco mais se vislumbra pelo gradeamento da montra do que as letras desiguais que dizem “drogas e ferragens”. Na porta enferrujada, pode ler-se: fechado. Mas, com um olhar mais atento, consegue ver-se Aníbal a contar as notas da caixa registadora. Poucas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está atrasado. Fecha a porta da drogaria onde trabalha há trinta anos nas cinco trancas e caminha num passo firme e rápido, tal como em menino corria atrás da bola e imitava Eusébio. As ruas já estão desertas. Na calçada ouve-se o barulho das meias solas novas dos sapatos, quebrando o silêncio da rua. Está tudo enfiado em casa. Aníbal não se lembra de alguma vez ter visto o bairro social para onde se mudou há uns anos - depois da casa herdada dos pais ter ido numa enxurrada -, estar tão calmo àquela hora. Nem carros, nem mulheres a estenderem a roupa. Só quatro crianças de tenra idade jogam o futebol de brincadeira no meio do parque de estacionamento, enquanto os adultos sofrem frente à televisão a ver Portugal a jogar, lá longe, na Alemanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aníbal ainda espreita para dentro do café e vê os amigos, todos na pré-reforma, sentados com a imperial na mão e um prato de caracóis na frente. Dá um passo para entrar, mas arrepende-se. Avança para o prédio que, mais uma vez tem o vidro partido, e ignora o novo grafito junto às campainhas. Entra e puxa o elevador da torre de 13 andares que parece um caixote de cimento armado. Por vezes, sonha que acontece àquela torre o mesmo que aconteceu às torres de Tróia que Belmiro mandou implodir. Acorda com suores frios, mas prazeirosos. Acorda agora, que o elevador salta à chegada ao sétimo andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao abrir da porta encontra a mulher a passar a ferro no meio da sala. Ela corre para os braços dele e diz “Marido, perdeste o golo! Mas eu conto-te como foi!…” A mulher continua a falar e Aníbal desliga o ferro de engomar. Senta-se junto dela e ouve-la com atenção. Dias de mundial são dias feitos de momentos e de partilha.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;...&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-115239972411321567?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/115239972411321567/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=115239972411321567' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115239972411321567'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115239972411321567'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/07/dias-de-mundial.html' title='DIAS DE MUNDIAL'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-115140715038507382</id><published>2006-06-27T12:18:00.000+01:00</published><updated>2007-02-06T14:40:01.975Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>DIAS NA FLORESTA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;O labirinto de árvores era tão medonho e sufocante como uma teia de aranha. Luzia desvendava o chão que pisava a custo, apenas com a luz da lua cheia que era um holofote e uma esperança no meio daquele breu. Perdida no caminho como na vida, as pernas começaram a fraquejar e Luzia pensou em desistir. Deixar-se ficar ali sossegada, dominada pela apatia, e viver com aquilo que vida lhe oferecia e não dos ideais que desejava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentou-se numa pedra e massajou os pés magoados de tantos quilómetros e anos a caminhar dentro da mesma floresta, sem chegar ao oásis. Lembrou o episódio em que a avó anciã a recriminou por sonhar tanto. “ Larga as novelas e vive um dia de cada vez. Caso contrário, nunca serás feliz”. Um dia, fugiu. Acreditou que conseguia ser feliz e ser mais e mais no mundo grande que ia além da meia dúzia de casas da sua aldeia. Quis ser e ter mais do que a mãe e a avó, mas, o feitiço pareceu não se quebrar nesta geração. Talvez tenha menosprezado a alegria da mãe e da avó, que não viram filmes nem novelas nem construíram argumentos cor-de-rosa para as suas vidas, antes se contentaram com as cores que já vinham na embalagem de vida onde chegaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cansaço tomou conta do corpo e Luzia adormeceu. Acordou assustada com um pássaro que fez um voo rasante à sua cabeça e gritou bem perto dos seus ouvidos. O relógio de cuco marca as seis horas. Luzia ajeita o corpo na cadeira que mais parece de pedra, da repartição onde trabalha, e onde o seu nome e a sua pessoa se perdem naquela floresta de cadeiras e secretárias cinzentas. A custo, leva o braço mais uma vez ao alto para carimbar mais um formulário. Pega na mala e sai, sem olhar para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanhã volta, para mais um dia na floresta negra.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-115140715038507382?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/115140715038507382/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=115140715038507382' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115140715038507382'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115140715038507382'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/06/dias-na-floresta.html' title='DIAS NA FLORESTA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-115133065435883116</id><published>2006-06-26T14:49:00.000+01:00</published><updated>2007-02-06T14:39:27.768Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>NOITES DE ARRAIAL</title><content type='html'>&lt;strong&gt;“ Está por aí alguém que perceba da máquina do som?...Que perceba dos graves, dos agudos e, já agora, são duas cervejas para aquela mesa.” O homem de bigode farto e barriga proeminente, que esconde o fato de tecido barato por baixo de uma capa de estudante, tenta cantar fado de Coimbra em pleno arraial dos santos populares, em Lisboa, mas ninguém leva a mal. Digamos que o arraial é multicultural, assim como bastante democrático; a tiazoca que está sentada lá ao fundo, com cabelo cor de palha e pulseiras douradas, bate palmas entusiasticamente para o guitarrista, congelado desde o 25 de Abril de 74, com os cabelos grandes e revoltos e os óculos de massa que lhe ocupam a cara toda. Técnico de som não havia, paciência, mas o senhor Henrique desenrascou a coisa. Mexeu para lá nos botões, que se encontravam protegidos da chuva que ameaçava cair por uma toalha de xadrez vermelho já debotado. E tudo correu bem até a D. Celeste ir cantar. A sua voz de cana rachada foi abafada pelo CD que, sem pedir licença, começou a rivalizar com a pobre senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seguir à D. Celeste veio a Soraia e a vaporosa Manuela, que soltou o cabelo para que a voz saísse com mais emoção. O rol de artistas anónimos foi-se desenrolando ao compasso das horas e o serão de grande passou a pequenino, com a madrugada a chegar e a cacimba a cair naquele beco modesto da cidade. O tasco dos comes e bebes começou a arrumar a tralha. Lava-se a panela do caldo verde servido em malgas de plástico e despacham-se as últimas sardinhas deitadas em fatias de pão saloio. O cheiro a manjerico que emana das varandas enferrujadas enche o ar e confunde-se com o cheiro da sardinha assada. O anfitrião da festa, com o seu blazer de botão dourado pendurado no corpo seco e bigode irrepreensivelmente bem aparado, terminou a noite dizendo: “ Muito obrigado pela vossa presença. Os nossos ilustres artistas vão, mas voltam. Palmas! Palmas!”. Em uníssono, ecoaram as palmas da magra plateia aos verdadeiros artistas portugueses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois dos últimos clientes abandonarem o recinto, um dos rapazes do tasco, de avental e vassoura na mão, vai limpando o chão e afastando as fitas coloridas que se enleiam nas pedras da calçada, enquanto cantarola o fado da Rita e do Chico que namoram às escondidas no Mercado da Ribeira.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-115133065435883116?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/115133065435883116/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=115133065435883116' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115133065435883116'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/115133065435883116'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/06/noites-de-arraial_26.html' title='NOITES DE ARRAIAL'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114998355445842274</id><published>2006-06-11T00:51:00.000+01:00</published><updated>2008-01-16T12:09:09.292Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>DIAS DE BAILE</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Os ensaios 1, 2, 3…teste! 1, 2, 3…teste!, repetiam-se até à exaustão. Há anos que os prédios em redor do recinto desportivo têm esta sina todos os sábados entre Junho e Julho. A maior parte das pessoas já fica indiferente a todo aquele aparato de cantores pimba a desfilarem, logo a seguir ao senhor gordo que segura a grade de cerveja com a barriga e tenta equilibrar o cigarro no canto da boca. Nem o cheiro a couratos que se entranha nos lençóis estendidos incomoda as donas de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei ao bairro da infância passados estes anos, com o som 1, 2,3…teste! a ecoar pelas paredes dos prédios. Não me irritei como tantas vezes acontecera antes. O áudio distorcido que vertia das colunas trazia agarrado a recordação dos verões da adolescência, quando as meninas de catorze e quinze anos não podiam sair sozinhas à noite e aquele era o único sopro de liberdade que podiam ambicionar. Programava-se a roupa com antecedência e nada era deixado ao acaso. A Susana tocava à minha campainha sempre pelas nove e meia e, às dez em ponto, lá estavam as raparigas, com o dinheiro contado para beber uma coca-cola ou comer uma sandes e prontas para duas horas de diversão e conversa onde o que menos contava era a música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei a Susana na rua, com a mesma sensação nostálgica no ouvido. Amigas desde a primeira classe, perguntámos pela vida como duas estranhas, agora que moramos em cidades diferentes e só ali nos cruzamos nas festas e nas férias, de visita a casa dos pais. Hoje não vamos ao baile. Os tempos mudaram. A idade é outra. A magia dos bailes acabou. A festa terminou.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114998355445842274?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114998355445842274/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114998355445842274' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114998355445842274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114998355445842274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/06/dias-de-baile.html' title='DIAS DE BAILE'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114876546411251931</id><published>2006-05-27T22:28:00.000+01:00</published><updated>2007-02-06T14:38:35.255Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>DIAS FORA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Trouxe-te comigo minha querida.&lt;br /&gt;Dentro de um vaso, que debruço sobre a janela deste quarto de hotel.&lt;br /&gt;Cuidadosamente, tomo conta desta planta frágil como tu, e do filho meu que carregas dentro de ti. Rego. Adubo. Podo.&lt;br /&gt;O irmão gémeo deste bonsai está longe, contigo, mas o ar que deles respiramos é único, como único é o nosso amor. &lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114876546411251931?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114876546411251931/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114876546411251931' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114876546411251931'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114876546411251931'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/05/dias-fora_27.html' title='DIAS FORA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114762229783890789</id><published>2006-05-14T16:57:00.000+01:00</published><updated>2007-02-06T14:34:04.159Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>NOITES DE SOLTURA</title><content type='html'>Mariana aguarda ansiosa a chegada de Luz . Da varanda de casa procura com os olhos o carro da amiga no virar na esquina. Despede-se de Rui com um beijo fugaz e desce as escadas num corropio. As amigas cumprimentam-se e preparam-se para uma noite de soltura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que a Inês nasceu que as noites de jantares fora de casa se contam pelos dedos. E já lá vão dois anos. Dois anos que não apagaram o pneu que se instalou no corpo outrora magro e seco e, mais, Mariana queixa-se agora de ter banhas nas costas. "Como é possível?", lamenta. Nem tudo é mau: os soutiens 34 ficaram guardados para sempre na gaveta; a gravidez elevou o peito para um 36 bem cheio. Tudo é pretexto para falar da filha. "Sabes que ela me perguntou para que serve isto!", comenta e exemplifica puxando a alça. Tudo agora é pretexto para falar dela, tudo agora gira em torno da Inês." Quem diria amiga - pasma-se Luz - que te rendias assim à condição de mãe. Se te dissesse isso há uns anos dirias que estava louca". E Mariana, com o olhar colado à mesa, confessa-se: "Se tivesse dinheiro até tinha mais. Mas o dinheiro, que vale tão pouco na altura de perseguir os sonhos, conta tanto quando chegam os filhos. "E Mariana começa a desabafar. O Rui está desempregado há mais de um mês, depois de ter corrido dezenas de trabalhos temporários, e ela não recebe há dois. "E pensamos nós que a adolescência é horrível, a vida aos trinta é muito mais dura do que qualquer desgosto de teenager". A comida está esquecida no prato. As tapas de presunto ficaram pela metade. Enche-se antes o copo para que a conversa escorra melhor. As luzes do restaurante parecem baixar e focar o rosto de Mariana e ela despe-se do sorriso de ciscunstância que tinha cravado na cara desde que se tinha sentado. Chamam a empregada de mesa e pedem outra rodada. A conversa ainda será longa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114762229783890789?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114762229783890789/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114762229783890789' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114762229783890789'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114762229783890789'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/05/noites-de-soltura.html' title='NOITES DE SOLTURA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114727032077722838</id><published>2006-05-10T14:34:00.000+01:00</published><updated>2007-02-06T14:33:39.966Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>TARDES DE PAI</title><content type='html'>A roda da frente da pasteleira desenha "esses" no alcatrão da praceta. A bicicleta estava parada há anos, desde que a filha mais velha a trocou pela mota. Força pai, faz força no volante para ela não torcer. O pai baixa os olhos de vergonha. O filho, de nove anos, está a dar-lhe lições sobre como andar de bicicleta. Ele que dá aulas na faculdade, vai a palestras no estrangeiro com os maiores especialistas, investigador de gabarito que aparece nos jornais e nas televisões e, no entanto, não tinha conseguido até hoje descobrir a fórmula mágica da felicidade, que existia dentro da sua própria casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela tarde voltou mais cedo porque lhe doía a cabeça e, quando se preparava para tomar um comprimido e esticar-se no sofá, eis que o Afonso rompe pela porta.O miúdo puxa os óculos para ter a certeza de que não está a ver uma miragem e cai sobre os seus braços. Vamos andar de bicicleta, Pai! O pai não disse que não e agora está a fazer figuras tristes no meio da rua, com as calças do fato arregaçadas e a gravata torta. O suor já cai pela testa, mas a dor de cabeça passou. Uma tarde bem passada, de muitas que agora virão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114727032077722838?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114727032077722838/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114727032077722838' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114727032077722838'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114727032077722838'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/05/tardes-de-pai.html' title='TARDES DE PAI'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114618184978689093</id><published>2006-04-28T00:49:00.000+01:00</published><updated>2007-02-06T14:33:16.169Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>SE O AMANHÃ NÃO EXISTISSE</title><content type='html'>Um beijo roubado já na porta da rua e uma vontade louca de o puxar para dentro de casa. Amá-lo como não acontece há mais de um ano. Sentir o cheiro e o calor dos dois corpos juntos. Sorrir como no dia em que fizeram o filho. Lembrar todas as horas felizes. Esquecer tudo por uma noite. Mas, foi precisamente uma noite que deitou tudo a perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O filme correu velozmente na cabeça dela. Pegou no braço dele e apertou-o com força, mas abandonou-o de seguida. Boa noite, disse. Fechou a porta e ficou a ouvir o som do elevador a descer. Os olhos humedeceram. Odiou-se. Orgulhou-se. E desejou que o amanhã não existisse.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114618184978689093?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114618184978689093/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114618184978689093' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114618184978689093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114618184978689093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/04/se-o-amanh-no-existisse.html' title='SE O AMANHÃ NÃO EXISTISSE'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114263280881401116</id><published>2006-03-17T21:43:00.000Z</published><updated>2008-01-16T12:13:16.874Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inocências'/><title type='text'>DEIXA-ME ACREDITAR</title><content type='html'>Helena aconchegou a roupa até ao pescoço de Margarida. Os lençóis coloridos com princesas e castelos e céu cor-de-rosa pintam os sonhos da filha. Assim ela o deseja. Abraça-a e sente o seu cheiro, o cheiro que a acompanha desde que a filha nasceu, já lá vai tanto e tão pouco tempo. Dos primeiros passos às primeiras letras. A sua bebé só tem quatro anos, mas percebe tudo. É tão viva.É tão esperta. É o seu orgulho. Está uma mulherzinha, já é uma mulherzinha. Deixa-me acreditar que vais continuar a sonhar com fadas e princesas que vivem felizes para sempre com o seu príncipe encantado. Deixa-me acreditar que não percebes que palavra feia é essa chamada divórcio e não sentes a falta do pai cá em casa. Deixa-me acreditar. Eu sei que percebes. Mas, deixa-me acreditar...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114263280881401116?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114263280881401116/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114263280881401116' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114263280881401116'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114263280881401116'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/03/deixa-me-acreditar.html' title='DEIXA-ME ACREDITAR'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114219807322673371</id><published>2006-03-12T20:53:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:30:39.929Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Perfeitos'/><title type='text'>ESTOU FELIZ</title><content type='html'>Inês entrou em casa e fechou a porta. O silêncio cumprimentou-a e Inês retribuiu com um... sorriso. As luzes do tecto pareciam holofotes em direcção à sua cara, tal como num palco. O que é que aconteceu, perguntaram as paredes, confidentes de tantas horas. Estou feliz, respondeu Inês. Es-tou - fe-liz!...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114219807322673371?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114219807322673371/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114219807322673371' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114219807322673371'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114219807322673371'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/03/estou-feliz.html' title='ESTOU FELIZ'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114079290597931938</id><published>2006-02-24T14:50:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:30:11.133Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Perfeitos'/><title type='text'>O PRIMEIRO BEIJO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Os lábios tocaram-se levemente, mas foi o suficiente para ligar a ignição do rubro da rapariga. Com uma cara de bolacha de um vermelho escarlate, ela fugia os olhos dos olhos dele e preferia passeá-los pela camisola azul mar que ele trazia vestido. Os pés baloiçavam-se, suspensos no tronco das pernas do rapaz que lhe tentava caçar um olhar que ela teimava em não lhe oferecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sorriso do rapaz parecia uma banana preso pelas orelhas. Dá-me um beijo, pediu à rapariga, que finalmente levantou o olhar flamejante para os dois botões azuis claros dos olhos do rapaz. Esticou o guindaste do pescoço e tocou naquele ponto cardeal a sul do rosto dele. O beijo durou um flash de máquina fotográfica. Indignado, ele voltou a reivindicar os lábios da namorada conquistada há meia hora. Cada vez mais vermelha de escaldão de praia, ele levou o seu pescoço de girafa até aos lábios carnudos da moça. Furou as portas da boca com a língua e esbarrou nos dentes. Dá-me a língua, disse-lhe baixinho sem deixar cerrar novamente as fileiras da boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sentiu o desconforto de não saber o que fazer. Os filmes não explicavam isso e para além dos lábios dos outros colados faltava-lhe a visão raio-x para saber como é. Tinha amigas que já tinham beijado rapazes na boca. Aliás, algumas orgulhavam-se de exibir um currículo de vários namorados para os seus tenros catorze anos. Mas, também por uma questão de orgulho e, reconheça-se, de vergonha, nunca perguntou a nenhuma como era aquele gesto misterioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escorregou do colo do rapaz para o banco do jardim onde, indiferentes aos casais de namorados, as pessoas circulavam, mas o rapaz continuou pregado aos seus lábios com uma super-cola-tudo persistente. Encheu-se de coragem e abocanhou o rapaz, mas escondeu a língua junto à garganta. Ele, pacientemente, pediu-lhe: dá-me a língua. Sem fuga possível, a rapariga esticou a pasta mole e encarnada da língua. Ao tocar a outra extremidade mole e húmida, desencadeou-se uma reacção química naquele corpo de menina feita mulher há pouco tempo. Uma lava percorreu todo o corpo, tocando as falanges dos dedos dos pés e arrepiando o couro cabeludo. Assim aconteceu o primeiro beijo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amanhã é outro dia...&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114079290597931938?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114079290597931938/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114079290597931938' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114079290597931938'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114079290597931938'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/02/o-primeiro-beijo.html' title='O PRIMEIRO BEIJO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114053776563165673</id><published>2006-02-21T16:00:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:29:20.287Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Imperfeitos'/><title type='text'>A VIDA E MORTE DE ROSARINHO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;O João dizia que queria ser jardineiro como o avô quando fosse grande. A verdade é que aos oito anos já demonstrava ter muito jeito para tratar das plantas. Falava com elas, acarinhava-as e cuidava das suas meninas (como lhes chamava). O avô Zé costumava reinar com a situação e dizer que ele, se vivesse com os árabes, era um sheik e as flores o seu harém. Dizia também que “aquele moço ainda vai dar muitas dores de cabeça quando as moças começarem a olhar para ele e a querer namorar”. O primeiro pedido de namoro não partiu, porém, de uma rapariga, mas de uma flor. A Rosarinho - como João docemente lhe chamava por se tratar de uma rosa que cresceu sem espinhos – fez a proposta a João, num final de tarde de primavera, quando ele a banhava com o chuveiro do regador e lhe penteava as pétalas. Envergonhada, João nem reparou que Rosarinho ficou mais vermelha do que na verdade era. João não aceitou o pedido da sua enamorada, dizendo à amiga que os meninos não se apaixonam por flores. Rosarinho aceitou, resignada, a resposta. João continuou a visitá-la todos os dias, mas, de dia para dia, encontrava a rosa mais cabisbaixa. Era um perfume triste aquele que se inalava da bela flor, que de bela passou a feia, nua, sem pétalas nem vida. O sol nunca mais brilhou para aquela rosa e Rosarinho murchou num dia de verão.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amanhã é outro dia...&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114053776563165673?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114053776563165673/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114053776563165673' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114053776563165673'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114053776563165673'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/02/vida-e-morte-de-rosarinho.html' title='A VIDA E MORTE DE ROSARINHO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114031003221787844</id><published>2006-02-19T00:43:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:29:40.311Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Perfeitos'/><title type='text'>SORRISO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;É largo e sincero. É bonito. É vida no meu olhar.&lt;br /&gt;É um bem precioso. Tem um valor incalculável. Não tem comparação.&lt;br /&gt;Guardo o teu sorriso no guarda-jóias do meu coração.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114031003221787844?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114031003221787844/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114031003221787844' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114031003221787844'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114031003221787844'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/02/sorriso.html' title='SORRISO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-114021736209750348</id><published>2006-02-17T23:01:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:28:13.203Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Tempo'/><title type='text'>O TEMPO SEM TEMPO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;O tempo passa a correr&lt;br /&gt;Parece um atleta&lt;br /&gt;Uma pantera&lt;br /&gt;Não espera por nós&lt;br /&gt;E nós não temos tempo&lt;br /&gt;Para o tempo&lt;br /&gt;Porque estamos a tratar das vidas&lt;br /&gt;Como se a vida não fosse uma&lt;br /&gt;Corrida contra o tempo.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amanhã já é fim-de-semana...&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-114021736209750348?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/114021736209750348/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=114021736209750348' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114021736209750348'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/114021736209750348'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/02/o-tempo-sem-tempo.html' title='O TEMPO SEM TEMPO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-113996383725505117</id><published>2006-02-15T00:32:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:26:24.976Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Imperfeitos'/><title type='text'>NA JANELA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Filomena já vai no quarto cigarro. As tentativas para deixar de fumar são tão fracassadas como os amores. Por isso, não deixa de fumar. Bela desculpa. Naquela janela, sempre de cigarro na mão, já pensou na sua vida de trás para a frente, tantas vezes quantas os maços de tabaco a que já pôs fim. Só aos problemas não consegue pôr um ponto final e, sempre que na sua história brilha o sol, logo no capítulo seguinte cai uma trovoada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela janela já viu passar o Inverno, a primavera e o verão, o Outono e o Inverno outra vez, porque a vida é um quarteirão, onde vamos sempre parar ao mesmo sítio. Um quarteirão tão grande como aquele que se vê da sua janela, mas sem espaço para todas as emoções e a raiva que explodem noite dentro a partir daquela janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite já vai longa. O filme romântico que estava a dar na televisão já deve ter terminado, com um final feliz como manda a lei. Pena a vida não ser assim. Mas, as heroínas dos filmes de hoje não fumam. E ela fuma. Deve ser por isso que continua à janela à espera do amor para deixar de fumar. A noite vai longa. Repete para si. O sono não chega, mas é preciso ir deitar. Uma última passa e um último desejo à estrela cadente que cruza o céu e se atravessa no olhar. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amanhã é outro dia...&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-113996383725505117?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/113996383725505117/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=113996383725505117' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113996383725505117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113996383725505117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/02/na-janela.html' title='NA JANELA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-113925714848475479</id><published>2006-02-06T20:17:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:25:58.343Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>DIA DE MISSA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Dois totós, com canudos a cair em cascata e uns laços de cetim branco a finalizar. O vestido, de branco imaculado, com a meia arrendada, feita à mão, a condizer. O sapato engraxado e com o lustro puxado, posto a secar no quintal, desde a véspera. A menina está pronta. O rapaz está mais atrasado porque não se lhe pode dar muita rédea ou, caso contrário, já está todo sujo e com os joelhos escalavrados quando chega a hora. Mãe e Pai estão aprumados com o fato domingueiro. Está na hora, grita a mãe. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Hora da missa. Seguem a pé, em passo ligeiro que os sinos já tocam lá ao fundo. A menina é arrastada pelo braço. O rapaz já levou um tabefe por dar um pontapé na irmã. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Finalmente na igreja, o penúltimo banco está-lhes reservado. As crianças sentam-se na frente. A mulher vira-se para as companheiras e resolvem coscuvilhar a vida das mulheres das filas da frente que, por sua vez, também estão a cochichar, com os olhos pregados nas donas de trás. Os homens deixam-se ficar à margem destas conversas. Aproveitam que as mulheres – as suas – estão entretidas, para falarem das mulheres – as outras – da vida. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O padre ouve e não liga. Já é a terceira missa do dia, já galgou mais de uma centena de quilómetros. Já não tem idade para se apoquentar com estas coisas, mas antes com os bicos de papagaio e o cancro que lhe toma conta do corpo. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Da hóstia ao fim da missa vão cinco minutos, mulheres e homens despedem-se no largo igreja. Vão para casa mais leves do seus pecados. A menina já leva um totó desfeito e o rapaz tem um joelho em ferida. &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amanhã é dia de trabalho…&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-113925714848475479?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/113925714848475479/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=113925714848475479' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113925714848475479'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113925714848475479'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/02/dia-de-missa.html' title='DIA DE MISSA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-113899240662459281</id><published>2006-02-03T18:43:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:25:22.149Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Perfeitos'/><title type='text'>DONA NOTÍCIA E OS SEUS DOIS MARIDOS</title><content type='html'>&lt;strong&gt;A maior parte das vezes, o jornalista sobe ao palco, recebe os aplausos, os louros e as vivas. Mas, o jornalista não passa de um actor secundário nos cenários que a vida apresenta. Esquecemos a filha gerada pelos factos: a notícia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se Dona Notícia Clara Concisa Concreta tem por medidas 86/60/86, mas toda ela é carne magra, seca, despojada de quaisquer sensacionalismos e adjectivos. Por onde passa é sensação, preto no branco, no microfone ou no ecrã, lá está ela, todos os dias, luminosa e importante. Com um vestido de palavras, assinado por um qualquer jornalista-estilista português, num corte simples, sem linguagem prolixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filha do vento, como os ciganos, ela nasce onde se cruze um facto com uma novidade. Não conhece horários e podemos vê-la de dia como de noite, num noticiário por aí. Morada também não tem. Vive de redacção em redacção e corre mundo. O mesmo se diga dos amores. Dona Notícia não se prende a ninguém, e renova paixões com os jornalistas diariamente. Deita-se no lençol de folha de jornal com jornalistas, e quando se levanta, salta para os braços do leitor, o outro homem da sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua maior virtude é a efemeridade. Com a sua higiene diária, as memórias do dia anterior, verdadeiros radicais livres, vão para o lixo, sem glória. Por isso, não ganha rugas e não envelhece. No tempo de leitura desta prosa, muitas notícias morreram por esse mundo fora, deixando viúvos um número incalculável de jornalistas que depressa se refazem do desgosto e arranjam outra notícia. É por isso que o jornalista é recordado e a notícia não. Mas, se por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, não há um jornalista que não tenha uma notícia por trás.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-113899240662459281?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/113899240662459281/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=113899240662459281' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113899240662459281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113899240662459281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/02/dona-notcia-e-os-seus-dois-maridos.html' title='DONA NOTÍCIA E OS SEUS DOIS MARIDOS'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-113891497256978958</id><published>2006-02-02T21:05:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:24:33.041Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inocências'/><title type='text'>O ANJO DA MARGARIDA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Uma pequena história feliz...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quando Margarida perdeu a Mãe e o Pai, um anjo desceu à Terra e entrou na sua vida. Não se vestia de branco e não tinha asas. Vestia-se de ganga. Falou com a flor, acarinhou-a, adubou-a e matou-lhe a sede de vida que ela sentia. Cumpriu a sua missão. E depois partiu. Não tinha asas mas voou, e levou consigo o negro que pintava as pétalas daquela margarida. Deixou o regador, para que ela nunca mais se sentisse sozinha.&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Amanhã é outro dia...&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-113891497256978958?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/113891497256978958/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=113891497256978958' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113891497256978958'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113891497256978958'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/02/o-anjo-da-margarida.html' title='O ANJO DA MARGARIDA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-113883503612493769</id><published>2006-02-01T23:02:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:24:06.037Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Imperfeitos'/><title type='text'>A PRAIA, A NEVE E O ANJO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;O meu coração é uma&lt;br /&gt;Praia coberta de neve&lt;br /&gt;Um manto frio e branco&lt;br /&gt;Que se esconde na pele&lt;br /&gt;Até ao dia em que um anjo&lt;br /&gt;Aquecer o meu corpo&lt;br /&gt;Colorir o meu rosto&lt;br /&gt;De cores e harmonia&lt;br /&gt;Perfumar-me com a maresia&lt;br /&gt;E eu digo que te amo.&lt;br /&gt;Até esse dia,&lt;br /&gt;Meu Anjo &lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-113883503612493769?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/113883503612493769/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=113883503612493769' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113883503612493769'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113883503612493769'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/02/praia-neve-e-o-anjo.html' title='A PRAIA, A NEVE E O ANJO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-113840202158969874</id><published>2006-01-27T22:43:00.000Z</published><updated>2007-02-06T13:23:53.828Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Imperfeitos'/><title type='text'>A ESCOVA DE DENTES</title><content type='html'>&lt;strong&gt;O Audi TT come os quilómetros da A1, de regresso a Lisboa. As viagens ao Porto serão menos frequentes a partir de agora. “Até não é mau – pensa – a carteira agradece, que isto de portagens e gasolina pesa muito no orçamento”. Mas, dantes, nada era demasiado para colmatar os trezentos quilómetros de distância. Nada custava muito e até o cansaço da viagem se transformava num nada quando desaguava nos braços e no colo daquela paixão. Paixão. E nada mais do que uma paixão, uma paixão que acabou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo espelho retrovisor, as luzes dos carros encandeiam e confundem. A sua cabeça também é ela uma enorme confusão, de sentimentos e acontecimentos. Olha novamente pelo espelho retrovisor, desta vez consegue ver o Gonçalo…está deitado a dormir…parece um anjo no meio do cetim branco dos lençóis…E ela observa-o, regista todos os traços do seu rosto, fixa-se no contorno dos lábios, no vinco azulado e já crónico das olheiras. Afaga-lhe o cabelo, suavemente, para não o acordar. Pensa no que será que ele está a sonhar. Se estará a sonhar com os momentos felizes que viveram na noite anterior. Apetece-lhe beijá-lo, apertá-lo contra o peito. Dormindo, o Gonçalo parece um bebé. Ela sempre o tratou por Bebé, pela diferença de idades. Aos trinta e cinco imaginava-se antes com um cota de cabelo grisalho do que a viver um romance com um puto de vinte e quatro anos. Mas não, este estudante universitário, fã de festas e candidato a tornar-se veterano nos corredores da faculdade, conseguiu dar a volta a uma mulher que levava a sua vida estável, um bom emprego e que pensava vagamente em ter filhos antes que o relógio biológico parasse. Curiosamente, nunca tinha tido namorados mais novos e nunca encontrou quem poderia ser o pai dos seus filhos. Agora, com o Gonçalo, que não era mais do que uma criança grande, apetecia-lhe ter filhos com eles, iguais a ele, adoptá-lo também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apanha um susto. No meio das divagações, distrai-se a olhar pelo espelho retrovisor e quase bate no carro da frente. O pé no travão a fundo, uma guinada no volante, os outros carros a buzinarem, a fazerem sinais de luzes e a mandá-la para todos os sítios feios e mais alguns. Quando chegou a casa, as pernas ainda tremiam, sentia o estômago apertado e o coração aos saltos. O coração?! O coração ainda bate?! Desde que encontrara o Gonçalo na cama com uma miúda, quando resolveu aparecer de surpresa depois de lhe ter dito que só ia mais tarde por causa de uma reunião, desde essa hora que achava que tinha ficado sem esse órgão vital. Foi à casa de banho. Olhou-se ao espelho e, ainda que estivesse perante um rosto abatido, era uma mulher bonita. Abriu a torneira da água fria, lavou o rosto e a seguir os dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De regresso à sala, muito na moda, em tons de branco e preto, num estilo minimalista, pegou no telemóvel e ligou…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou sim?&lt;br /&gt;- Olá Raquel, tudo bem?&lt;br /&gt;- Ah, és tu? Não era suposto estares no Porto a mudar as fraldas a um puto? Nos últimos tempos nada era mais sagrado para ti do que os fins-de-semana na Invicta. Gonçalo para cá, Gonçalo para lá…&lt;br /&gt;- oh querida, o Gonçalo é história! Olha, sagrada é a minha escova de dentes! Esqueci-me dela todos os fins-de-semana…comprei para aí uma dezena!...Queres ir beber um copo?&lt;br /&gt;- Claro! É esta noite que vamos conhecer os homens da nossa vida! Passa aqui por casa daqui a meia hora.&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-113840202158969874?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/113840202158969874/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=113840202158969874' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113840202158969874'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113840202158969874'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/01/escova-de-dentes.html' title='A ESCOVA DE DENTES'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-113828847609848803</id><published>2006-01-26T15:12:00.000Z</published><updated>2007-02-06T14:23:04.894Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inocências'/><title type='text'>OS OLHOS DA RITA</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;&lt;span style="color:#330033;"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Nos olhos da Rita&lt;br /&gt;Vejo cor e alegria&lt;br /&gt;Oito anos de vida&lt;br /&gt;Feitos de amor.&lt;br /&gt;O aconchego do seu abraço&lt;br /&gt;Faz do mundo&lt;br /&gt;Um enorme laço&lt;br /&gt;Cor-de-rosa,&lt;br /&gt;A sua cor preferida.&lt;br /&gt;A Rita,&lt;br /&gt;É uma menina rica&lt;br /&gt;Diz ter tudo o que precisa&lt;br /&gt;Não quer dinheiro nem bonecas&lt;br /&gt;Para ela, tudo o resto não interessa&lt;br /&gt;Tem o amor da mãe&lt;br /&gt;O mais importante da vida.&lt;br /&gt;A mãe sabe que a filha vai crescer&lt;br /&gt;Ser mulher e conhecer&lt;br /&gt;O mundo e o amor de um homem.&lt;br /&gt;Talvez o desgosto.&lt;br /&gt;Mas aos olhos da mãe&lt;br /&gt;E aos olhos da Rita&lt;br /&gt;O amor entre elas será sempre um todo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-113828847609848803?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/113828847609848803/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=113828847609848803' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113828847609848803'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113828847609848803'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/01/os-olhos-da-rita.html' title='OS OLHOS DA RITA'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-113819314557777326</id><published>2006-01-25T12:35:00.000Z</published><updated>2007-02-06T13:18:45.951Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Amores Perfeitos'/><title type='text'>AUTOCARRO DO AMOR</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Alto! Antes de embarcar nesta viagem e picar o bilhete, aviso já que o título está errado. Agora que está avisado, se quiser, faça o favor de entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se um dia…Um desconhecido entrasse no autocarro lhe oferecesse flores e pregasse um beijo?…Era bom não era?…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De autocarro do amor não tem nada, mas, quem me manda estar aqui a armar em pateta (tenho que ler menos romances da Margarida Rebelo Pinto). A canção até só falava de um eléctrico do amor. Diga-se, de passagem, que o eléctrico é um transporte muito mais romântico do que o autocarro. Especialmente, se for um autocarro como aquele que me calhou hoje na rifa. Avancemos até à próxima paragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deviam cobrar apenas meio-bilhete por nos enfiarem numa caranguejola velha daquelas. Parecia um velhinho, cheio de reumático, pela maneira como se queixava de cada vez que o motorista lhe puxava pelas mudanças. Ou então, um daqueles burros em fim de carreira, que vão para o asilo, no Algarve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal ou bem, uma pessoa até vai aguentando o ronronar do autocarro e a espera interminável do trânsito quando a companhia apetece. Género um Brad Pitt ou um George Clooney sentado ao nosso lado, de preferência, com a barba por fazer. ( Alto! Pára aí que isto já não é sonhar, é delírio!)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta ao 50. Aqui aplica-se o provérbio “um mal nunca vem só”. O Brad Pitt deu lugar a um monstro com120 quilos, flácido e “perfumado” (se é que me entendem, numa mistura de Old Spice com suor). “A menina dá-me licença?”. Bolas! Lá se foi o meu sossego. Agora tenho que levar a pilha de livros e a pasta no colo e no cume prostrar o meu livro, último romance em promoção no hipermercado. E se o Brad Pitt entrar na Praça de Espanha já não se senta ao meu lado! Perco a oportunidade de casar com um homem bonito e rico. Ah, é verdade, já me esquecia que ele agora anda com a Angelina Jolie. Será que o George Clooney está casado ou divorciado? Não interessa, isso resolvia-se depressa. O problema não está nos divórcios, mas sim nas pensões de alimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai ai, assim nunca mais lá chegamos. Avança até à próxima paragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Azar, um acidente mais à frente. Duas horas colada àquele homem que, ainda por cima, adormeceu e, garanto-vos, o ressonar dele não era música aos meus ouvidos. Nem o ressonar dele, nem as gralhas das três ciganas que entraram em Alcântara, carregadas de sacos pretos, com mercadoria “de qualidade”, pronta para vender no mercado do próximo fim-de-semana. Do passageiro junto ao vidro pára-brisas ao último, todos ficaram a saber que um dos primos está na cadeia por droga e o irmão de uma delas encontra-se a monte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Tejo, atracado, está o verdadeiro Barco do Amor e a piscina é linda vista de cima, da Ponte 25 de Abril. Saio na paragem do Pragal, respiro o ar puro (quero dizer, carregado de dióxido de carbono) e choco com o …Brad! Não, não é. Chama-se Bernardo e é lindo de morrer! Que manhã maravilhosa!!!!!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-113819314557777326?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/113819314557777326/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=113819314557777326' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113819314557777326'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113819314557777326'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/01/autocarro-do-amor.html' title='AUTOCARRO DO AMOR'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21337952.post-113793410047264418</id><published>2006-01-22T12:44:00.000Z</published><updated>2007-02-06T13:17:38.395Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dias'/><title type='text'>MANHÃ DE DOMINGO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;Os sinos da Igreja tocam ao longe&lt;br /&gt;O meu sono teima em permanecer&lt;br /&gt;Dos sonhos não quero acordar.&lt;br /&gt;Quero ficar a amar nesta manhã de domingo&lt;br /&gt;E só sinto a chuva a cair&lt;br /&gt;E o corpo a enroscar&lt;br /&gt;Quero acreditar que este dia não vai acabar&lt;br /&gt;E o meu amor continuará deitado nestes lençóis de linho.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#663366;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21337952-113793410047264418?l=amanha-e-outro-dia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/feeds/113793410047264418/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21337952&amp;postID=113793410047264418' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113793410047264418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21337952/posts/default/113793410047264418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://amanha-e-outro-dia.blogspot.com/2006/01/manh-de-domingo.html' title='MANHÃ DE DOMINGO'/><author><name>Maria</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04061883189693923020</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='33' height='19' src='http://img107.imageshack.us/img107/6778/horizon0wm.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
